quinta-feira, 2 de outubro de 2014

VANESSA DO LARGO

Era domingo. Era noite. Não havia nuvens e a lua estava especialmente cheia, preenchendo boa parte do céu com a sua forma e todo o resto com a luz que refletia do sol. Se eu não estivesse no meio da cidade, cheia das suas luzes elétricas e neons, certamente estaria igualmente claro (e poético), graças à ela. O clima estava agradável, pedindo por uma caminhada. Minha mente, ao contrário do céu, estava bastante nublada, pedindo por uma reflexão.

Andei por horas, cruzando a cidade para chegar até a minha casa. No caminho, na região da Estação da Luz, fui abordado por uma mulher, claramente dependente de drogas, armada com caderno e caneta, me oferecendo sua Arte Cultura: Poesia de Rua. Seu nome é Vanessa, ou, como ela me disse, sorrindo com seus dentes faltantes: "Vanessa do Largo, porque não sou nem a Camargo, nem a Da Mata, mesmo sendo Vanessa. Então, como sou daqui, sou a Vanessa do Largo, entendeu?".

Pessoas que passavam por nós olhavam com estranheza. Nunca saberei o que pensavam. Se era "o que essa mulher está conversando com ele?" ou "o que esse cara esta conversando com ela?". Mas perceber isso também me divertia e, ao mesmo tempo, entristecia. Afinal, somos dois seres humanos dotados de capacidades comunicativas. Por que motivo uma conversa deveria ser tão estranha? Sociedade doente...

Com o passar do tempo, ela foi ficando mais confiante para falar. Disse muitas frases prontas, de fato, mas todas com alguma poesia. Ao mesmo tempo que falava, riscava seu caderno com uma agilidade nervosa típica de alguém que já está há muito entregue às drogas. Tive a nítida impressão de que, se fosse preciso, ela ficaria horas e horas riscando aquelas folhas.

Por fim, Vanessa fez o pedido que eu já esperava desde o momento que a vi se aproximar: "aceito qualquer contribuição que puder dar pela minha Arte Cultura: Poesia de Rua". Era engraçado como, sempre que falava do que estava fazendo, ela precisava repetir o slogan inteiro. Ao mesmo tempo que sua voz e jeito de falar transpareciam todo o peso daquela vida.

Olhei em seus olhos e decidi fazer um pequeno jogo:
– Se eu te der algum dinheiro. O que fará com ele?
– Vou tomar um banho.
– Não minta pra mim, Vanessa! O que vai fazer com o dinheiro?
– Vou mesmo tomar um banho, porque estou precisando... e dar uns pegas também, é verdade! Mas estou nessa vida porque eu quis, porque eu escolhi!

Eu sorri, pois era exatamente isso que eu queria com aquele joguinho. Só queria ouvir uma verdade óbvia. Queria que ela fosse verdadeira comigo, assim como eu estava sendo com ela naquele momento.

Então fiz um último pedido: que escrevesse algo para mim enquanto pegava algum dinheiro para ela. Sua caneta voltou a riscar nervosamente a folha e Vanessa declamava aquilo que colocava no papel:

"p/ Sérgio c/ carinho

Arte Cultura
Poesia de Rua

Somos livres p/ escolher
Porém escravos das consequências

Vanessa do Largo"

Não cabia a mim fazer qualquer julgamento ou tentar "salvá-la daquela vida". Sabia que, de certa maneira, estava contribuindo com seu vício, mas suas palavras falavam tanto dela mesma quanto de mim. Ela foi livre pra escolher e agora é escrava das consequências. Então lhe dei um pouco de humanidade, de atenção, de carinho. 

Ofereci apenas um aperto de mãos e um "obrigado" ao invés de ceder à minha vontade de abraçá-la. Me arrependo disso.

Trocamos a minha nota por sua folha. Papel por papel. Cada qual com um valor diferente. E, ao meu ver, fiquei com o mais valioso dos dois.

Made of Steel

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

QUEM DERA...

"Quem dera" é desejo, expectativa, frustração, tristeza.
"Quem dera" é renovação, vontade, impotência.
"Quem dera" é sonho, efêmero, passageiro, distante.
"Quem dera" é falso.

Quem dera as pessoas parassem de usá-lo sem realizá-lo.
Quem dera eu fosse diferente destas pessoas.

Made of Steel

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

ETERNO SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

Gostaríamos de ser todos Teseus e Hipólitas, soberanos e poderosos. Talvez Lisandros, Demétrios, Hérmias e Helenas, tão apaixonados e vívidos, aventureiros. Também nos encanta a ideia de sermos Oberons, Titânias e Pucks, com sua astúcia e magia. Ah, como isso seria maravilhoso! Um verdadeiro sonho!

Mas a verdade é que somos nada mais que carpinteiros, tecelões, funileiros, marceneiros e alfaiates, todos atuando em papéis de maneira tão medíocre quanto patética. Arrogantes em querer representar heróis, leões e até mesmo o luar.

Tão mais honesto seria se nos concentrássemos em nossas verdadeiras virtudes! Tão mais formidáveis seríamos se nos fosse mais querido realizar aquilo que nossas aptidões sugerem! Por que desejamos tanto aquilo que não somos? Por que é tão difícil aceitar a si próprio?

Porque devo ser perfeito e soberano aos olhos dos outros. Porque o amor é pré-moldado e qualquer coisa fora desta forma escolhida é promíscua e errada. Porque astúcia é uma qualidade necessária nesse mundo cheio de armadilhas sociais e a fantasia nos oferece uma fuga à realidade fria como o inverno. Frio é ruim, o calor é bom.

Então continuemos nossa interminável peça. Tão trágica quanto a história de Píramo e Tisbe, tão cômica quanto os atores que a encenam. Continuemos nossa dança cíclica acompanhada de fadas e elfos! Continuemos vivendo, cada um, seu próprio e eterno sonho de uma noite de verão!

Made of Steel

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O CORPO

O corpo pede.
O corpo deseja.
O corpo chama.

O corpo é chama.
O corpo é fogo.
O corpo é vulcão.
O corpo é raio.
O corpo é choque.

Choque entre aquilo que se quer e o que se deve.
Choque entre o que se pode e o que se tem.

O corpo quer, deve, pode e tem.

O corpo é vontade.
O corpo é luxúria.
O corpo é desejo.

Made of Steel

quinta-feira, 13 de março de 2014

ESTOU ACORDADO?

Estávamos os dois envolvidos por águas cristalinas quando ela começou a me olhar fixamente, em silêncio. Já conhecia aquele olhar: distante, pensativo, confuso.

Seus olhos sempre me encantaram e, de tanto admirá-los, aprendi a entendê-los. Olhos de Lua, pois, assim como o astro, mudavam quase que por capricho, revelando diversas faces de si mesma, todas igualmente fascinantes.

O silêncio permaneceu por muito tempo, até ser quebrado por uma pergunta que eu já esperava:
– Estou acordada?
– Não.
– Foi o que pensei...

Mais uma vez, o silêncio. Mais uma vez, um olhar. Mais uma vez, uma pergunta. Desta vez, com lágrimas tremeluzindo junto com seu lindos olhos prismáticos:
– Então... todas as minhas memórias... são mentiras?
– Não é isso. Elas apenas não aconteceram ainda, mas virão com o tempo.
– Não! É tudo mentira! Tudo mentira...

Ofereci meu abraço mais carinhoso e consegui trazer o conforto necessário. As lágrimas cessaram e deram lugar à palavras preenchidas de ternura misturada à melancolia, narrando memórias de acontecimentos ainda reservados ao futuro. Fomos até a cama e continuamos dividindo aquele momento sereno, sincero, mágico, único. Uma conversa embalada por carinhos, olhares, carícias e palavras doces.

Um bocejo impôs sua vontade e, com voz sonolenta e olhos pesados, ela lutava para que Morfeu não a cobrisse com seu manto. Quando questionei o motivo, a resposta me invadiu, preenchendo-me com o mais puro dos sentimentos: "Se eu dormir, deixarei de existir, e minhas memórias comigo. Não posso permitir que isso aconteça".

Nossos lábios se tocaram num longo e caloroso beijo. Nos amamos intensamente até que, no ápice, ela despertou e se entregou a mim num abraço forte, compartilhando nosso êxtase.

Esse foi um dos momentos mais poéticos da minha vida, e cheguei a pensar que talvez não tivesse outra oportunidade, mas estava enganado. Mais um vez, seu despertar não-desperto veio até mim para trazer à tona os mais profundos e poderosos sentimentos.

Por desaventuras do caminho, após certo tempo, seguimos rumos diferentes. Não sem muita dor para ambos.

Alguns dias depois, quando estava deitado na cama, pronto para dormir, meu telefone toca. Seu nome, escrito no visor, me surpreendeu, mas não foi tão grande quanto o espanto ao ouvir seu tom de voz inspirando alegria num simples "oi".

Em certo momento da conversa, logo no início, aquela mesma pergunta:
– Estou acordada?
– Não.
– É... acertou!

Lá estava ela novamente, mas desta vez não para dividir memórias futuras. Eram os sentimentos de hoje que dominaram as horas de conversa que se sucederam. Inclusive com revelações e confissões inesperadas.

Seus apelos me tocaram profundamente, revelando aquilo que estava latente, encoberto com pensamentos forçados e forjados para esse exato propósito: ocultar. Eis que, mais uma vez, me vi naquela cama, com meu olhar perdido em seus Olhos de Lua, lutando contra o sono. Mais uma vez, preenchido.

Então abro meus olhos, deitado na minha cama, olhando para o teto. De repente tudo tão distante, tão frio.
– Estou acordado?
– Sim, estou.

Made of Steel

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ESCOLHA

Todo segundo estamos fazendo escolhas. Nossa vida é uma enorme sucessão de opções e alternativas, apresentadas das mais diversas maneiras, nos mais variados prismas. Nós, influenciados por sentimentos ou informações que não possuíamos antes, podemos tomar decisões completamente opostas numa diferença de um piscar de olhos. Cada decisão tomada cria uma infinidade de universos paralelos onde teríamos seguido outro caminho, gerando um efeito espiral tamanho que o simples imaginar já é confuso e complexo demais!

Diante de tantas variáveis e incertezas, como podemos querer ter a pretensão de fazer sempre a escolha certa? Como podemos prepotentemente nos considerar capazes de ponderar todas as possibilidades e simplesmente dizer "é essa"?

A triste realidade é que não existe "opção correta". Sempre haverá algo que torna todas as alternativas minimamente positivas ou vantajosas e, em contra partida, também outro algo que se mostra ruim em cada uma delas. O segredo está num exercício diário de reflexão, onde todos os "prós" e "contras" são pesados, cada qual com sua relevância naquele momento (e, se possível, no futuro), para que, matematicamente, sejamos capazes de fazer "a melhor escolha".

Entretanto, por mais racional que a pessoa seja, ela ainda é movida por seus sentimentos em certo grau. Então encontramos um novo dilema: como mensurar um sentimento? Uma coisa tão inconstante, tão sensível, teria um cálculo tão preciso quanto alguém que tenta contar os grãos de areia durante uma tempestade no meio do deserto!

Justamente por essa fragilidade, algumas vezes nos são apresentadas escolhas que consideramos "difíceis". Essas, norteadas por um altíssimo grau de incerteza, são aquelas das quais temos menor domínio sobre as variáveis envolvidas. Na maioria dos casos, para tornar tudo ainda mais complicado, não temos a opção de testar as possibilidades e ter tempo de analisar qual delas trouxe o melhor resultado. Pior ainda, muitas vezes as alternativas são autoexcludentes... E então? O que fazer?

Acredito que devemos aceitar nossa imperfeição e insignificância diante de tal cenário, buscando simplesmente fazer o melhor possível para "acertar". Além disso, constatado nosso erro, ter a humildade de admitir e tentar contornar a situação, novamente, da melhor maneira possível, nesse ciclo infinito de possibilidades.

Você pode concordar comigo ou não. A escolha é sua!

Made of Steel

terça-feira, 15 de outubro de 2013

MONSTRO INSENSÍVEL

Numa manhã comum, enquanto comia meu café-da-manhã, estava assistindo o telejornal matinal, como de costume. Tudo ia bem, até que a jornalista noticiou friamente um acidente de carro que causou a morte de uma família inteira e, logo em seguida, em menos de um mísero segundo, abriu um sorriso enorme e entusiasmado para falar sobre como seria o clima no final de semana que estava por vir.

Será mesmo possível que chegamos nesse nível de indiferença? A vida de desconhecidos é tão insignificante assim? É inaceitável que tenhamos nos tornado monstros insensíveis, incapazes de ter compaixão e ficar impressionados com o fim da vida de outros seres humanos simplesmente pelo fato de não termos nenhuma relação afetiva com eles!

Foi então que percebi que eu tinha ficado mais revoltado com a mudança drástica de humor da apresentadora e a indiferença com que tratou a tragédia do que com as mortes em si. Ou seja, eu também não estava preocupado com o triste fim daquelas vidas desconhecidas! Eu também sou um monstro insensível...

Imediatamente fui levado de volta à antiga reflexão sobre aquilo que, ao meu ver, é a essência do ser humano: o egoísmo. (para ler meu texto que fala sobre o egoísmo, clique aqui)

Tudo isso só faz evidenciar aquilo que já é tão óbvio para todos nós, ainda que, num primeiro momento, seja negado pelas normas sociais do "correto" e "moral": a dor que sentimos é totalmente relativa e depende do quanto o fato ou objeto em questão nos é querido, podendo chegar ao cúmulo de valorizarmos mais utensílios mundanos (um celular, uma bola, uma carta, etc.) do que outras vidas, humanas ou não.

É melhor encerrar por aqui, pois o frio que percorre a minha espinha neste instante é incômodo demais. Mais incômodo que a morte de uma família desconhecida...

Made of Steel

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

TUDO E NADA EM UM SÓ

A vida humana é algo definitivamente fascinante. As pessoas nada mais são que personagens num grande enredo de comédia, drama, terror, tragédia, suspense e romance. Contamos nossas próprias histórias enquanto ajudamos outros a contarem as suas, mas somos tão preocupados com nossos mínimos mundinhos – tão imensos para nós – que nunca conseguimos enxergar além.

Vamos fazer um breve exercício: pense em várias situações cotidianas possíveis, as mais diversas que conseguir. Por mais louco que pareça, é bem provável que todas tenham acontecido, em algum lugar, exatamente no momento em que você leu esta frase. Mais louco ainda é que muitas outras situações sequer imaginadas também ocorreram e nós nunca saberemos.

Somos os personagens principais e coadjuvantes, somos o cenário, a plateia, o diretor e a própria história. Somos tudo ao mesmo tempo e, ainda assim, simplesmente não existimos para a grande maioria. Tudo e nada em um só.

Nos consideramos únicos e adoramos repetir que "não existe ninguém igual a outro". Mas se pararmos para pensar, essa inabalável instituição do "eu" nada mais é do que um punhado das características já existentes em outras pessoas mescladas de uma maneira caótica, como num grande quebra-cabeças disforme, reunidas num recipiente que muda a cada segundo, eternamente buscando "o formato perfeito" – se é que ele existe.

Como é dito no filme O Homem Bicentenário: "O que torna alguém único são suas imperfeições". Para ser perfeito, é preciso ter falhas. Para ser tudo, é preciso ser nada.

Made of Steel

domingo, 15 de setembro de 2013

SENHOR DO TEMPO

Um dos aspectos mais notáveis sobre o tempo cronológico é o quanto nossa percepção dele é relativa. O mais comum é constatar que ele parece lento em momentos chatos ou incômodos, enquanto se acelera nos instantes de prazer e alegria. Afinal, esperar numa fila de banco pode durar uma eternidade, mas enfrentar a mesma fila enquanto se tem uma conversa agradável com um amigo torna-se uma experiência curta.

Porém, paradoxalmente, existem situações em que ocorre o inverso. Essas ocasiões são geralmente muito comemoradas, pois os momentos de prazer são expandidos enquanto os tediosos são comprimidos. Até hoje não encontrei um padrão para esses casos. Infelizmente, continuam sendo um grande mistério para mim, um tesouro a ser desvendado.

A maioria das pessoas ignora ou negligencia esse relativismo do tempo. Ficam totalmente passivas imaginando que nada podem fazer para alterar essa situação. Acreditam que são reféns, incapazes de alterar suas próprias percepções sobre o avanço das horas. Mas cabe aqui o questionamento: será mesmo que somos impotentes dessa forma? Será que não podemos fazer nada?

Se isso for verdade, se não há o que fazer para tornar sempre os bons momentos em longos momentos e os ruins em breves, então devemos usar a nossa própria matemática e garantir que a soma dos pequenos instantes de alegria seja maior do que os intermináveis aflitos. Só assim poderemos nos declarar senhores do nosso próprio tempo.

Made of Steel

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

JANELAS DA ALMA

Estava sentado numa Sala de Espera aguardando ser chamado para fazer um exame. Nada complexo, apenas um exame qualquer para ver se estava tudo ok. Fones de ouvido estrategicamente posicionados nas orelhas, mp4 tocando minhas músicas, pessoas desinteressantes sentadas nas cadeiras à minha volta, uma TV ligada num canal qualquer, meu pé batendo no chão conforme o ritmo que escutava, isolado do mundo, pensando no quanto aquele exame seria importante pra que minha namorada ficasse aliviada (e eu também), apenas esperando.

Minha cabeça baixa, olhando para o chão, noto um par de pés semi-ocultos por uma saia longa passando apressadamente. Levanto a cabeça, vejo um jaleco branco e cabelos castanhos aloirados, provavelmente tingidos. A médica segue pelo corredor e desaparece depois de uma esquina. Segundos depois retorna, vejo seu rosto e percebo que é uma bela moça, mas algo chama muito mais atenção: os olhos. Sabe quando tem alguma coisa no seu dia que te faz ficar pensando naquilo durante horas? Aqueles olhos... tão tristes... o que será que aconteceu pra que ela esteja com um olhar tão triste?

Ela passa por mim mais uma vez e desaparece por uma porta. Pouco depois sou chamado, entro numa sala e me deito na maca. A assistente me diz para aguardar um pouco, que o médico viria em seguida. Para meu espanto, o "médico" era na verdade "médica", mais precisamente a médica-dos-olhos-tristes. Me cumprimentou cordialmente, perguntou o motivo de eu estar ali, iniciou o exame.

Era um tipo de ultrassonografia, portanto a sala estava escura, apenas com a tela do computador iluminando tudo. A médica ficava lá movendo o scanner sobre a minha barriga pra ver se minhas artérias renais estavam bem, seu rosto azulado pela luz da tela. E lá estavam eles novamente: os olhos tristes. Só que agora tive mais tempo pra analisá-los com calma. Eles não eram tristes, eram vazios, sem vida, sem vontade, automáticos, mecânicos.

Uma mulher bonita, inteligente (ao menos é isso que se espera de quem está te examinando), médica (deve ganhar bem)... então por que aquele olhar estava lá? Não parecia ser apenas "um dia ruim" ou algo do tipo, era profundo.

Olho para minhas mãos e vejo minha aliança, um símbolo que me faz sorrir todos os dias. Olho para as mãos dela, não vejo nada em seus dedos. Será que esse é o motivo do vazio? Sei que poucos tem a sorte de encontrar alguém para amar, mas antes de mais nada deveriam amar a si mesmos!

Ai que vontade de conseguir ler a mente das pessoas! Ver seus sentimentos, ouvir suas angústias... Quanta curiosidade! Nada aconteceu. O exame terminou e, depois de uma despedida tão curta e cordial quanto o cumprimento, ela saiu da sala e logo em seguida fui para minha casa.

É cruel perceber o quanto as pessoas estão vazias por dentro, ainda mais quando você mesmo se sente tão bem e transbordando alegria. Chega a ser injusto, egoísta. Tão belos são os olhos dos apaixonados, tão frios os dos vazios de vontade. Deve ser por isso que os primeiros enxergam o mundo tão colorido enquanto os últimos só percebem diferentes tons de cinza.

"Os olhos são as janelas da alma" é o que dizem. Se isso é verdade, aconselho a todos que mantenham sempre suas janelas bem limpas e conservadas. Caso elas quebrem, mesmo que só um pouquinho, arrumem o mais rápido possível! Senão o frio pode entrar pelo buraco da sua janela quebrada e, mesmo que seja consertada depois, ele ficará para sempre dentro de você.

Made of Steel