segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

CICATRIZES OCULTAS

Agosto. Segunda-feira. Tarde. O rapaz, chamado Lucas, tinha no rosto uma expressão indiferente, senão tediosa. Na sua mão, uma pequena máquina manipulada com destreza duvidosa, mas suficiente. Cada fio que caía embalado pelo som incansável do aparelho revelava algo novo. 

Em oposição ao semblante do rapaz, eu observava atentamente cada detalhe. Queria garantir que aquele momento ficaria registrado na minha memória. Então começaram a surgir: cicatrizes. Mais do que pensei ter. Mais do que lembrava ter.

Aquela briga com minha irmã mais nova há muitos anos atrás... Aquele dia em que caí enquanto corria e acertei a quina de alguma coisa... Acho que era isso... E essa? De onde veio? E aquela?

Eram cinco no total. Das quais apenas uma tinha origem certa. As demais estavam lá para provar que as tinha vivido, mas minha mente não me dizia o que. Sensação engraçada aquela. Misto de descrença e desagrado. Desconforto.

O som findou. Meu reflexo no espelho mostrava que agora estava completamente careca. Acho que nem quando nasci tive tão pouco cabelo. Pela primeira vez em todos os meus quase 26 anos de historia, não tinha como me esconder.

Cada um daqueles fios de cabelo era ao mesmo tempo uma parte do meu ego e um pedaço da minha armadura. Desde pequeno sempre me senti tão frágil, mesmo usando de todos os recursos que dispunha para mostrar o contrário pro mundo. Agora eu estava ali, com minha armadura no chão, nu, leve. Não tinha mais motivo para me esconder. Precisava provar para mim mesmo que me bastava, sem truques, sem ego.

Passei a mão por toda a careca e senti o toque áspero dos minúsculos fios que escaparam à máquina. Olhei mais uma vez cada uma daquelas cicatrizes. São feridas que nunca fecharão completamente e, mesmo que não me lembre de onde vieram, não me importo. Eu aceito.

Uma vez ouvi a frase: "Ria, e o mundo rirá com você. Chore, e chorará sozinho". Bom.. Diante de mim mesmo naquele espelho, eu sorri.

Made of Steel

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

INSETO NO ELEVADOR

Estava atrasado para o trabalho, só pra variar um pouco. Levantar da cama era uma batalha diária e cada vez menos tinha vontade de vencê-la. Era uma pequena morte a cada manhã.

Entrei no elevador para subir os sete andares até a minha mesa. Julguei estar sozinho, mas me equivoquei. Um pequeno inseto voava debilmente lá dentro, se lançando contra as paredes, indo na direção das diversas luzes daquele cárcere temporário na esperança de achar a saída.

Sua inteligência artrópode era limitada demais para entender o que estava acontecendo, creio eu. Será que ele é capaz de sentir pânico? Será que é preciso racionalizar o perigo para o chegar no desespero?

O painel finalmente mostra o número 7. A porta se abre e novas luzes, ainda mais intensas, levam o inseto para este novo ambiente. Um pouco mais amplo, mas igualmente confinado e mentiroso. Ele procura a luz do sol, não a lâmpada!

Durante poucos segundos, ele parecia satisfeito com seu novo espaço, mas não demorou muito para iniciar mais uma vez seu frenesi em busca de algo além daquelas paredes. Talvez ele saiba, ou apenas sinta, que sua vida de inseto é curta demais para perder tempo com lâmpadas artificiais.

Entrei na minha sala, sentei na minha mesa. Não conseguia mais ver se ele ainda estava no corredor, mas conseguia ver o sol iluminando o dia através da janela. Toquei o vidro suavemente e respirei fundo. A tela do meu computador brilhou e roubou minha atenção. Mais um dia de trabalho.

Made of Steel

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

MAS O QUE VAI RESTAR É O SILÊNCIO

Era domingo. A nação escolhia seu governante pelos próximos quatro anos. Era domingo e, assim como num certo domingo de Agosto recente, tive que me desfazer de uma parte de mim, mas desta vez a dor era muito maior, pois era uma parte que não queria perder.

Era domingo quando nos conhecemos. Na verdade, foram dois domingos. No primeiro você me conheceu, no segundo eu te conheci.

Era domingo quando senti o gosto dos seus lábios pela primeira vez e, um domingo depois, tão avassalador era aquele sentimento que dividíamos, ouvi um "sim" ressoando docemente entre esses mesmos lábios.

Era domingo quando te entreguei os anéis de prata que selavam nosso compromisso. Tudo isso durante um ritual sagrado, solene e intenso que acontecia há exatos três anos. Justo 3, um número que sabemos quantos significados tem para nós.

Muitos domingos se passaram desde então. Muitos sorrisos, beijos, abraços, carinhos, toques, palavras, respirações, ocitocinas, panaceias, batimentos, lágrimas... Só não pensei que o domingo seria também o fim, pois não pensava que existiria o fim.

Domingo é o dia do Sol. Foi você quem me ensinou. Assim como me ensinou muito mais. E lhe serei eternamente grato por isso. Assim como serei eternamente acompanhado pelo sentimento transcendental que nos uniu e que sabemos que nunca nos abandonará.

Escrevo essas palavras numa segunda-feira, dia da Lua. No mesmo dia da Lua em que você inicia um novo ciclo que comemoraríamos num dia do Sol depois de, numa sexta-feira, dia de Vênus, eu cantar com todo o meu fôlego para que deixem o Sol entrar. Sol... domingo... deixa... entrar...

E é assim, sem conter as lágrimas que escorrem pelo meu rosto, que deixo entrar sua última mensagem vinda no dia do Sol, mesmo que ela "entrar" signifique aceitar que parte de mim saia e que, ao contrário do que se espera do Sol, me tire um pouco da luz.

No seu próximo dia de Vênus, você estará celebrando mais uma vez um ritual de amor. Como você mesma disse, de Amor Próprio. Eu me despeço com outras palavras que cantei no meu último dia de Vênus:

Um último olhar
E um abraço dar
Pela última vez beijar
Mas o que vai restar
É o silêncio...

Adieu?
Non.

Made of Steel

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

VANESSA DO LARGO

Era domingo. Era noite. Não havia nuvens e a lua estava especialmente cheia, preenchendo boa parte do céu com a sua forma e todo o resto com a luz que refletia do sol. Se eu não estivesse no meio da cidade, cheia das suas luzes elétricas e neons, certamente estaria igualmente claro (e poético), graças à ela. O clima estava agradável, pedindo por uma caminhada. Minha mente, ao contrário do céu, estava bastante nublada, pedindo por uma reflexão.

Andei por horas, cruzando a cidade para chegar até a minha casa. No caminho, na região da Estação da Luz, fui abordado por uma mulher, claramente dependente de drogas, armada com caderno e caneta, me oferecendo sua Arte Cultura: Poesia de Rua. Seu nome é Vanessa, ou, como ela me disse, sorrindo com seus dentes faltantes: "Vanessa do Largo, porque não sou nem a Camargo, nem a Da Mata, mesmo sendo Vanessa. Então, como sou daqui, sou a Vanessa do Largo, entendeu?".

Pessoas que passavam por nós olhavam com estranheza. Nunca saberei o que pensavam. Se era "o que essa mulher está conversando com ele?" ou "o que esse cara esta conversando com ela?". Mas perceber isso também me divertia e, ao mesmo tempo, entristecia. Afinal, somos dois seres humanos dotados de capacidades comunicativas. Por que motivo uma conversa deveria ser tão estranha? Sociedade doente...

Com o passar do tempo, ela foi ficando mais confiante para falar. Disse muitas frases prontas, de fato, mas todas com alguma poesia. Ao mesmo tempo que falava, riscava seu caderno com uma agilidade nervosa típica de alguém que já está há muito entregue às drogas. Tive a nítida impressão de que, se fosse preciso, ela ficaria horas e horas riscando aquelas folhas.

Por fim, Vanessa fez o pedido que eu já esperava desde o momento que a vi se aproximar: "aceito qualquer contribuição que puder dar pela minha Arte Cultura: Poesia de Rua". Era engraçado como, sempre que falava do que estava fazendo, ela precisava repetir o slogan inteiro. Ao mesmo tempo que sua voz e jeito de falar transpareciam todo o peso daquela vida.

Olhei em seus olhos e decidi fazer um pequeno jogo:
– Se eu te der algum dinheiro. O que fará com ele?
– Vou tomar um banho.
– Não minta pra mim, Vanessa! O que vai fazer com o dinheiro?
– Vou mesmo tomar um banho, porque estou precisando... e dar uns pegas também, é verdade! Mas estou nessa vida porque eu quis, porque eu escolhi!

Eu sorri, pois era exatamente isso que eu queria com aquele joguinho. Só queria ouvir uma verdade óbvia. Queria que ela fosse verdadeira comigo, assim como eu estava sendo com ela naquele momento.

Então fiz um último pedido: que escrevesse algo para mim enquanto pegava algum dinheiro para ela. Sua caneta voltou a riscar nervosamente a folha e Vanessa declamava aquilo que colocava no papel:

"p/ Sérgio c/ carinho

Arte Cultura
Poesia de Rua

Somos livres p/ escolher
Porém escravos das consequências

Vanessa do Largo"

Não cabia a mim fazer qualquer julgamento ou tentar "salvá-la daquela vida". Sabia que, de certa maneira, estava contribuindo com seu vício, mas suas palavras falavam tanto dela mesma quanto de mim. Ela foi livre pra escolher e agora é escrava das consequências. Então lhe dei um pouco de humanidade, de atenção, de carinho. 

Ofereci apenas um aperto de mãos e um "obrigado" ao invés de ceder à minha vontade de abraçá-la. Me arrependo disso.

Trocamos a minha nota por sua folha. Papel por papel. Cada qual com um valor diferente. E, ao meu ver, fiquei com o mais valioso dos dois.

Made of Steel

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

QUEM DERA...

"Quem dera" é desejo, expectativa, frustração, tristeza.
"Quem dera" é renovação, vontade, impotência.
"Quem dera" é sonho, efêmero, passageiro, distante.
"Quem dera" é falso.

Quem dera as pessoas parassem de usá-lo sem realizá-lo.
Quem dera eu fosse diferente destas pessoas.

Made of Steel

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

ETERNO SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

Gostaríamos de ser todos Teseus e Hipólitas, soberanos e poderosos. Talvez Lisandros, Demétrios, Hérmias e Helenas, tão apaixonados e vívidos, aventureiros. Também nos encanta a ideia de sermos Oberons, Titânias e Pucks, com sua astúcia e magia. Ah, como isso seria maravilhoso! Um verdadeiro sonho!

Mas a verdade é que somos nada mais que carpinteiros, tecelões, funileiros, marceneiros e alfaiates, todos atuando em papéis de maneira tão medíocre quanto patética. Arrogantes em querer representar heróis, leões e até mesmo o luar.

Tão mais honesto seria se nos concentrássemos em nossas verdadeiras virtudes! Tão mais formidáveis seríamos se nos fosse mais querido realizar aquilo que nossas aptidões sugerem! Por que desejamos tanto aquilo que não somos? Por que é tão difícil aceitar a si próprio?

Porque devo ser perfeito e soberano aos olhos dos outros. Porque o amor é pré-moldado e qualquer coisa fora desta forma escolhida é promíscua e errada. Porque astúcia é uma qualidade necessária nesse mundo cheio de armadilhas sociais e a fantasia nos oferece uma fuga à realidade fria como o inverno. Frio é ruim, o calor é bom.

Então continuemos nossa interminável peça. Tão trágica quanto a história de Píramo e Tisbe, tão cômica quanto os atores que a encenam. Continuemos nossa dança cíclica acompanhada de fadas e elfos! Continuemos vivendo, cada um, seu próprio e eterno sonho de uma noite de verão!

Made of Steel

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O CORPO

O corpo pede.
O corpo deseja.
O corpo chama.

O corpo é chama.
O corpo é fogo.
O corpo é vulcão.
O corpo é raio.
O corpo é choque.

Choque entre aquilo que se quer e o que se deve.
Choque entre o que se pode e o que se tem.

O corpo quer, deve, pode e tem.

O corpo é vontade.
O corpo é luxúria.
O corpo é desejo.

Made of Steel

quinta-feira, 13 de março de 2014

ESTOU ACORDADO?

Estávamos os dois envolvidos por águas cristalinas quando ela começou a me olhar fixamente, em silêncio. Já conhecia aquele olhar: distante, pensativo, confuso.

Seus olhos sempre me encantaram e, de tanto admirá-los, aprendi a entendê-los. Olhos de Lua, pois, assim como o astro, mudavam quase que por capricho, revelando diversas faces de si mesma, todas igualmente fascinantes.

O silêncio permaneceu por muito tempo, até ser quebrado por uma pergunta que eu já esperava:
– Estou acordada?
– Não.
– Foi o que pensei...

Mais uma vez, o silêncio. Mais uma vez, um olhar. Mais uma vez, uma pergunta. Desta vez, com lágrimas tremeluzindo junto com seu lindos olhos prismáticos:
– Então... todas as minhas memórias... são mentiras?
– Não é isso. Elas apenas não aconteceram ainda, mas virão com o tempo.
– Não! É tudo mentira! Tudo mentira...

Ofereci meu abraço mais carinhoso e consegui trazer o conforto necessário. As lágrimas cessaram e deram lugar à palavras preenchidas de ternura misturada à melancolia, narrando memórias de acontecimentos ainda reservados ao futuro. Fomos até a cama e continuamos dividindo aquele momento sereno, sincero, mágico, único. Uma conversa embalada por carinhos, olhares, carícias e palavras doces.

Um bocejo impôs sua vontade e, com voz sonolenta e olhos pesados, ela lutava para que Morfeu não a cobrisse com seu manto. Quando questionei o motivo, a resposta me invadiu, preenchendo-me com o mais puro dos sentimentos: "Se eu dormir, deixarei de existir, e minhas memórias comigo. Não posso permitir que isso aconteça".

Nossos lábios se tocaram num longo e caloroso beijo. Nos amamos intensamente até que, no ápice, ela despertou e se entregou a mim num abraço forte, compartilhando nosso êxtase.

Esse foi um dos momentos mais poéticos da minha vida, e cheguei a pensar que talvez não tivesse outra oportunidade, mas estava enganado. Mais um vez, seu despertar não-desperto veio até mim para trazer à tona os mais profundos e poderosos sentimentos.

Por desaventuras do caminho, após certo tempo, seguimos rumos diferentes. Não sem muita dor para ambos.

Alguns dias depois, quando estava deitado na cama, pronto para dormir, meu telefone toca. Seu nome, escrito no visor, me surpreendeu, mas não foi tão grande quanto o espanto ao ouvir seu tom de voz inspirando alegria num simples "oi".

Em certo momento da conversa, logo no início, aquela mesma pergunta:
– Estou acordada?
– Não.
– É... acertou!

Lá estava ela novamente, mas desta vez não para dividir memórias futuras. Eram os sentimentos de hoje que dominaram as horas de conversa que se sucederam. Inclusive com revelações e confissões inesperadas.

Seus apelos me tocaram profundamente, revelando aquilo que estava latente, encoberto com pensamentos forçados e forjados para esse exato propósito: ocultar. Eis que, mais uma vez, me vi naquela cama, com meu olhar perdido em seus Olhos de Lua, lutando contra o sono. Mais uma vez, preenchido.

Então abro meus olhos, deitado na minha cama, olhando para o teto. De repente tudo tão distante, tão frio.
– Estou acordado?
– Sim, estou.

Made of Steel

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ESCOLHA

Todo segundo estamos fazendo escolhas. Nossa vida é uma enorme sucessão de opções e alternativas, apresentadas das mais diversas maneiras, nos mais variados prismas. Nós, influenciados por sentimentos ou informações que não possuíamos antes, podemos tomar decisões completamente opostas numa diferença de um piscar de olhos. Cada decisão tomada cria uma infinidade de universos paralelos onde teríamos seguido outro caminho, gerando um efeito espiral tamanho que o simples imaginar já é confuso e complexo demais!

Diante de tantas variáveis e incertezas, como podemos querer ter a pretensão de fazer sempre a escolha certa? Como podemos prepotentemente nos considerar capazes de ponderar todas as possibilidades e simplesmente dizer "é essa"?

A triste realidade é que não existe "opção correta". Sempre haverá algo que torna todas as alternativas minimamente positivas ou vantajosas e, em contra partida, também outro algo que se mostra ruim em cada uma delas. O segredo está num exercício diário de reflexão, onde todos os "prós" e "contras" são pesados, cada qual com sua relevância naquele momento (e, se possível, no futuro), para que, matematicamente, sejamos capazes de fazer "a melhor escolha".

Entretanto, por mais racional que a pessoa seja, ela ainda é movida por seus sentimentos em certo grau. Então encontramos um novo dilema: como mensurar um sentimento? Uma coisa tão inconstante, tão sensível, teria um cálculo tão preciso quanto alguém que tenta contar os grãos de areia durante uma tempestade no meio do deserto!

Justamente por essa fragilidade, algumas vezes nos são apresentadas escolhas que consideramos "difíceis". Essas, norteadas por um altíssimo grau de incerteza, são aquelas das quais temos menor domínio sobre as variáveis envolvidas. Na maioria dos casos, para tornar tudo ainda mais complicado, não temos a opção de testar as possibilidades e ter tempo de analisar qual delas trouxe o melhor resultado. Pior ainda, muitas vezes as alternativas são autoexcludentes... E então? O que fazer?

Acredito que devemos aceitar nossa imperfeição e insignificância diante de tal cenário, buscando simplesmente fazer o melhor possível para "acertar". Além disso, constatado nosso erro, ter a humildade de admitir e tentar contornar a situação, novamente, da melhor maneira possível, nesse ciclo infinito de possibilidades.

Você pode concordar comigo ou não. A escolha é sua!

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terça-feira, 15 de outubro de 2013

MONSTRO INSENSÍVEL

Numa manhã comum, enquanto comia meu café-da-manhã, estava assistindo o telejornal matinal, como de costume. Tudo ia bem, até que a jornalista noticiou friamente um acidente de carro que causou a morte de uma família inteira e, logo em seguida, em menos de um mísero segundo, abriu um sorriso enorme e entusiasmado para falar sobre como seria o clima no final de semana que estava por vir.

Será mesmo possível que chegamos nesse nível de indiferença? A vida de desconhecidos é tão insignificante assim? É inaceitável que tenhamos nos tornado monstros insensíveis, incapazes de ter compaixão e ficar impressionados com o fim da vida de outros seres humanos simplesmente pelo fato de não termos nenhuma relação afetiva com eles!

Foi então que percebi que eu tinha ficado mais revoltado com a mudança drástica de humor da apresentadora e a indiferença com que tratou a tragédia do que com as mortes em si. Ou seja, eu também não estava preocupado com o triste fim daquelas vidas desconhecidas! Eu também sou um monstro insensível...

Imediatamente fui levado de volta à antiga reflexão sobre aquilo que, ao meu ver, é a essência do ser humano: o egoísmo. (para ler meu texto que fala sobre o egoísmo, clique aqui)

Tudo isso só faz evidenciar aquilo que já é tão óbvio para todos nós, ainda que, num primeiro momento, seja negado pelas normas sociais do "correto" e "moral": a dor que sentimos é totalmente relativa e depende do quanto o fato ou objeto em questão nos é querido, podendo chegar ao cúmulo de valorizarmos mais utensílios mundanos (um celular, uma bola, uma carta, etc.) do que outras vidas, humanas ou não.

É melhor encerrar por aqui, pois o frio que percorre a minha espinha neste instante é incômodo demais. Mais incômodo que a morte de uma família desconhecida...

Made of Steel