quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ESCOLHA

Todo segundo estamos fazendo escolhas. Nossa vida é uma enorme sucessão de opções e alternativas, apresentadas das mais diversas maneiras, nos mais variados prismas. Nós, influenciados por sentimentos ou informações que não possuíamos antes, podemos tomar decisões completamente opostas numa diferença de um piscar de olhos. Cada decisão tomada cria uma infinidade de universos paralelos onde teríamos seguido outro caminho, gerando um efeito espiral tamanho que o simples imaginar já é confuso e complexo demais!

Diante de tantas variáveis e incertezas, como podemos querer ter a pretensão de fazer sempre a escolha certa? Como podemos prepotentemente nos considerar capazes de ponderar todas as possibilidades e simplesmente dizer "é essa"?

A triste realidade é que não existe "opção correta". Sempre haverá algo que torna todas as alternativas minimamente positivas ou vantajosas e, em contra partida, também outro algo que se mostra ruim em cada uma delas. O segredo está num exercício diário de reflexão, onde todos os "prós" e "contras" são pesados, cada qual com sua relevância naquele momento (e, se possível, no futuro), para que, matematicamente, sejamos capazes de fazer "a melhor escolha".

Entretanto, por mais racional que a pessoa seja, ela ainda é movida por seus sentimentos em certo grau. Então encontramos um novo dilema: como mensurar um sentimento? Uma coisa tão inconstante, tão sensível, teria um cálculo tão preciso quanto alguém que tenta contar os grãos de areia durante uma tempestade no meio do deserto!

Justamente por essa fragilidade, algumas vezes nos são apresentadas escolhas que consideramos "difíceis". Essas, norteadas por um altíssimo grau de incerteza, são aquelas das quais temos menor domínio sobre as variáveis envolvidas. Na maioria dos casos, para tornar tudo ainda mais complicado, não temos a opção de testar as possibilidades e ter tempo de analisar qual delas trouxe o melhor resultado. Pior ainda, muitas vezes as alternativas são autoexcludentes... E então? O que fazer?

Acredito que devemos aceitar nossa imperfeição e insignificância diante de tal cenário, buscando simplesmente fazer o melhor possível para "acertar". Além disso, constatado nosso erro, ter a humildade de admitir e tentar contornar a situação, novamente, da melhor maneira possível, nesse ciclo infinito de possibilidades.

Você pode concordar comigo ou não. A escolha é sua!

Made of Steel

terça-feira, 15 de outubro de 2013

MONSTRO INSENSÍVEL

Numa manhã comum, enquanto comia meu café-da-manhã, estava assistindo o telejornal matinal, como de costume. Tudo ia bem, até que a jornalista noticiou friamente um acidente de carro que causou a morte de uma família inteira e, logo em seguida, em menos de um mísero segundo, abriu um sorriso enorme e entusiasmado para falar sobre como seria o clima no final de semana que estava por vir.

Será mesmo possível que chegamos nesse nível de indiferença? A vida de desconhecidos é tão insignificante assim? É inaceitável que tenhamos nos tornado monstros insensíveis, incapazes de ter compaixão e ficar impressionados com o fim da vida de outros seres humanos simplesmente pelo fato de não termos nenhuma relação afetiva com eles!

Foi então que percebi que eu tinha ficado mais revoltado com a mudança drástica de humor da apresentadora e a indiferença com que tratou a tragédia do que com as mortes em si. Ou seja, eu também não estava preocupado com o triste fim daquelas vidas desconhecidas! Eu também sou um monstro insensível...

Imediatamente fui levado de volta à antiga reflexão sobre aquilo que, ao meu ver, é a essência do ser humano: o egoísmo. (para ler meu texto que fala sobre o egoísmo, clique aqui)

Tudo isso só faz evidenciar aquilo que já é tão óbvio para todos nós, ainda que, num primeiro momento, seja negado pelas normas sociais do "correto" e "moral": a dor que sentimos é totalmente relativa e depende do quanto o fato ou objeto em questão nos é querido, podendo chegar ao cúmulo de valorizarmos mais utensílios mundanos (um celular, uma bola, uma carta, etc.) do que outras vidas, humanas ou não.

É melhor encerrar por aqui, pois o frio que percorre a minha espinha neste instante é incômodo demais. Mais incômodo que a morte de uma família desconhecida...

Made of Steel

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

TUDO E NADA EM UM SÓ

A vida humana é algo definitivamente fascinante. As pessoas nada mais são que personagens num grande enredo de comédia, drama, terror, tragédia, suspense e romance. Contamos nossas próprias histórias enquanto ajudamos outros a contarem as suas, mas somos tão preocupados com nossos mínimos mundinhos – tão imensos para nós – que nunca conseguimos enxergar além.

Vamos fazer um breve exercício: pense em várias situações cotidianas possíveis, as mais diversas que conseguir. Por mais louco que pareça, é bem provável que todas tenham acontecido, em algum lugar, exatamente no momento em que você leu esta frase. Mais louco ainda é que muitas outras situações sequer imaginadas também ocorreram e nós nunca saberemos.

Somos os personagens principais e coadjuvantes, somos o cenário, a plateia, o diretor e a própria história. Somos tudo ao mesmo tempo e, ainda assim, simplesmente não existimos para a grande maioria. Tudo e nada em um só.

Nos consideramos únicos e adoramos repetir que "não existe ninguém igual a outro". Mas se pararmos para pensar, essa inabalável instituição do "eu" nada mais é do que um punhado das características já existentes em outras pessoas mescladas de uma maneira caótica, como num grande quebra-cabeças disforme, reunidas num recipiente que muda a cada segundo, eternamente buscando "o formato perfeito" – se é que ele existe.

Como é dito no filme O Homem Bicentenário: "O que torna alguém único são suas imperfeições". Para ser perfeito, é preciso ter falhas. Para ser tudo, é preciso ser nada.

Made of Steel

domingo, 15 de setembro de 2013

SENHOR DO TEMPO

Um dos aspectos mais notáveis sobre o tempo cronológico é o quanto nossa percepção dele é relativa. O mais comum é constatar que ele parece lento em momentos chatos ou incômodos, enquanto se acelera nos instantes de prazer e alegria. Afinal, esperar numa fila de banco pode durar uma eternidade, mas enfrentar a mesma fila enquanto se tem uma conversa agradável com um amigo torna-se uma experiência curta.

Porém, paradoxalmente, existem situações em que ocorre o inverso. Essas ocasiões são geralmente muito comemoradas, pois os momentos de prazer são expandidos enquanto os tediosos são comprimidos. Até hoje não encontrei um padrão para esses casos. Infelizmente, continuam sendo um grande mistério para mim, um tesouro a ser desvendado.

A maioria das pessoas ignora ou negligencia esse relativismo do tempo. Ficam totalmente passivas imaginando que nada podem fazer para alterar essa situação. Acreditam que são reféns, incapazes de alterar suas próprias percepções sobre o avanço das horas. Mas cabe aqui o questionamento: será mesmo que somos impotentes dessa forma? Será que não podemos fazer nada?

Se isso for verdade, se não há o que fazer para tornar sempre os bons momentos em longos momentos e os ruins em breves, então devemos usar a nossa própria matemática e garantir que a soma dos pequenos instantes de alegria seja maior do que os intermináveis aflitos. Só assim poderemos nos declarar senhores do nosso próprio tempo.

Made of Steel

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

JANELAS DA ALMA

Estava sentado numa Sala de Espera aguardando ser chamado para fazer um exame. Nada complexo, apenas um exame qualquer para ver se estava tudo ok. Fones de ouvido estrategicamente posicionados nas orelhas, mp4 tocando minhas músicas, pessoas desinteressantes sentadas nas cadeiras à minha volta, uma TV ligada num canal qualquer, meu pé batendo no chão conforme o ritmo que escutava, isolado do mundo, pensando no quanto aquele exame seria importante pra que minha namorada ficasse aliviada (e eu também), apenas esperando.

Minha cabeça baixa, olhando para o chão, noto um par de pés semi-ocultos por uma saia longa passando apressadamente. Levanto a cabeça, vejo um jaleco branco e cabelos castanhos aloirados, provavelmente tingidos. A médica segue pelo corredor e desaparece depois de uma esquina. Segundos depois retorna, vejo seu rosto e percebo que é uma bela moça, mas algo chama muito mais atenção: os olhos. Sabe quando tem alguma coisa no seu dia que te faz ficar pensando naquilo durante horas? Aqueles olhos... tão tristes... o que será que aconteceu pra que ela esteja com um olhar tão triste?

Ela passa por mim mais uma vez e desaparece por uma porta. Pouco depois sou chamado, entro numa sala e me deito na maca. A assistente me diz para aguardar um pouco, que o médico viria em seguida. Para meu espanto, o "médico" era na verdade "médica", mais precisamente a médica-dos-olhos-tristes. Me cumprimentou cordialmente, perguntou o motivo de eu estar ali, iniciou o exame.

Era um tipo de ultrassonografia, portanto a sala estava escura, apenas com a tela do computador iluminando tudo. A médica ficava lá movendo o scanner sobre a minha barriga pra ver se minhas artérias renais estavam bem, seu rosto azulado pela luz da tela. E lá estavam eles novamente: os olhos tristes. Só que agora tive mais tempo pra analisá-los com calma. Eles não eram tristes, eram vazios, sem vida, sem vontade, automáticos, mecânicos.

Uma mulher bonita, inteligente (ao menos é isso que se espera de quem está te examinando), médica (deve ganhar bem)... então por que aquele olhar estava lá? Não parecia ser apenas "um dia ruim" ou algo do tipo, era profundo.

Olho para minhas mãos e vejo minha aliança, um símbolo que me faz sorrir todos os dias. Olho para as mãos dela, não vejo nada em seus dedos. Será que esse é o motivo do vazio? Sei que poucos tem a sorte de encontrar alguém para amar, mas antes de mais nada deveriam amar a si mesmos!

Ai que vontade de conseguir ler a mente das pessoas! Ver seus sentimentos, ouvir suas angústias... Quanta curiosidade! Nada aconteceu. O exame terminou e, depois de uma despedida tão curta e cordial quanto o cumprimento, ela saiu da sala e logo em seguida fui para minha casa.

É cruel perceber o quanto as pessoas estão vazias por dentro, ainda mais quando você mesmo se sente tão bem e transbordando alegria. Chega a ser injusto, egoísta. Tão belos são os olhos dos apaixonados, tão frios os dos vazios de vontade. Deve ser por isso que os primeiros enxergam o mundo tão colorido enquanto os últimos só percebem diferentes tons de cinza.

"Os olhos são as janelas da alma" é o que dizem. Se isso é verdade, aconselho a todos que mantenham sempre suas janelas bem limpas e conservadas. Caso elas quebrem, mesmo que só um pouquinho, arrumem o mais rápido possível! Senão o frio pode entrar pelo buraco da sua janela quebrada e, mesmo que seja consertada depois, ele ficará para sempre dentro de você.

Made of Steel

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O HOMEM QUE CHORAVA PÉROLAS

Numa hora qualquer duma madrugada qualquer, por um motivo qualquer, acordei. O despertador não tocou, nenhum barulho alto, ninguém me chamando... nada! Apenas despertei, era isso o que deveria acontecer. 

Levantei da cama. Olhei o relógio para constatar que ainda demoraria pra amanhecer e ir pro trabalho. Fui até a cozinha tomar um copo d'água. Senti fome. Preparei rapidamente a mesa. Peguei prato, talheres, pão e margarina. Como de costume, liguei a TV para assisti-la enquanto comia. E foi assim, sem aviso, sem motivo, sem querer, num momento improvável, que ouvi uma das conversas mais interessantes dos últimos tempos.

Estava passando um filme que não parecia ser bom, daqueles que só passam durante a madrugada, que mostrava a vida de dois garotos afegãos. Não era uma produção hollywoodiana, apenas mais um "filme B" de baixo orçamento. Ainda assim, valeu a pena pelo seguinte diálogo:

Garoto A: – Estou escrevendo um livro sobre um homem que as lágrimas se transformam em pérolas!
Garoto B: – Que legal! Como é a história?
A: – O homem é muito pobre, tem uma vida miserável, por isso chora muito. Um dia, um santo fica com pena dele e lhe dá uma bênção: suas lágrimas começaram a virar pérolas!
B: – Hmm... e o que acontece com esse homem?
A: – Por causa das pérolas, ele deixa de ser pobre. Mas deixando de ser pobre, não tem mais motivos pra chorar, então mata a própria esposa para chorar bastante e ganhar mais pérolas!
B: – Mas se ele queria tanto chorar, por que simplesmente não começou a cortar cebolas?

Nessa hora percebi: acordei para aprender uma lição, e, graças à sabedoria de um pequeno garoto afegão, não precisei chorar para isso.

Made of Steel

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

OS VERDADEIROS FENÔMENOS, IMPERADORES E GLADIADORES

Vivemos numa sociedade cheia de conceitos distorcidos. O certo por vezes parece errado e o errado quase sempre parece certo. Exigir seus direitos é "ser chato", falar a verdade é "ser inconveniente", demonstrar seus sentimentos é "ser fraco". Mas é claro que, paradoxalmente, o discurso que é repetido papagaiosamente é o de que temos que ser bons e justos, pensando no bem-estar do próximo. O que há de errado conosco, afinal?

Recentemente assisti uma palestra muito interessante encabeçada por um oficial da Polícia Militar de São Paulo. Ao contrário da imagem estereotipada que temos de policiais, o cara era um verdadeiro showman! O tema era inatividade militar, nada muito cativante, mas ele foi se empolgando e acabou tocando num assunto intrigante: como as pessoas negligenciam as coisas verdadeiramente importantes e valorizam o supérfluo. Usarei a própria fala dele para explicar:

"O camarada chega em casa, suado e fedido depois de jogar futebol com os amigos no domingo. Senta no sofá, coloca as botinas sujas em cima da mesa de centro, puxa o controle remoto e liga a TV. E o que ele vai assistir na TV? Futebol, é claro! A esposa aparece na sala e antes mesmo de dizer 'oi' o camarada já pergunta se tem comida feita porque ele está com fome. Dá 16h, o jogo começa, e ele fica vidrado! Piscar significa perder um lance que pode ser um gol! Não, ele não pode piscar!

Se o time ganha, ele vibra, pula, grita, corre, ajoelha, agradece, sorri. Se o time perde, ele grita, xinga, briga, bate na parede. Quanta emoção, quanta energia... pelo futebol. Se o time é campeão, vai correndo comprar uma camiseta pra dar de presente pro filho, paga uma rodada de cerveja pra todos os amigos. Os ídolos que o levam à loucura são conhecidos como Fenômeno, Imperador, Gladiador... e coitado de quem disser que tal jogador não é o maior de todos os tempos! O camarada vira um bicho!

Mas e quando não tem jogo? Onde está toda a energia? O filho aparece com um boletim escolar só com notas 10, e o que o nosso camarada faz? Nada! No máximo um 'parabéns filho'... E pra esposa? Será que ele olha pra ela e diz carinhosamente 'você é um fenômeno, minha imperatriz'? Duvido muito!"

Essa é a realidade no "País do Futebol" e certamente existe algo equivalente nos demais. Por isso, meus caros, sugiro que parem de idolatrar as pessoas erradas antes que seja tarde. Afinal de contas, ao contrário da sua esposa, seu filho, seus pais, irmãos e amigos, o Fenômeno, o Imperador e o Gladiador não sabem quem você é e se importam menos ainda.

Ver seu "time de coração" vencer pode ser ótimo, mas isso não valerá de nada se você mesmo for um perdedor.

Made of Steel

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

UM RAPAZ, UMA CASA E UMA FLORESTA

Um rapaz vivia confortavelmente dentro de uma bela casa. Ele se sentia feliz, aconchegado, satisfeito. Seu mundo se resumia àquela casa, tudo que precisava estava ali, não tinha do que reclamar. Sua vida era tão feliz, era simplesmente maravilhoso, invejável. Foi então, numa tarde qualquer, que tudo mudou.

Ele estava perto da lareira, admirado o fogo, calado, ouvindo apenas os sons da lenha estalar por causa das chamas. De repente, um som pesado e grave imperou no salão: estavam batendo à porta. Knock knock knock! O som não parava. Knock knock knock! Ele não queria abrir. Knock knock knock! O fogo parecia bem mais interessante. Knock knock knock! Nada que tinha fora da casa valia a pena. Knock knock knock! Enfim, abriu a porta.

Para sua surpresa, não havia ninguém do outro lado. Porém, logo que moveu a pesada porta de madeira, uma forte brisa entrou na casa e, de tão potente, apagou a lareira. Nesse momento ele notou, não era tarde, mas sim noite. Agora, sem a luz do fogo, a casa parecia assustadora. Sem o calor, sentiu como a casa era fria. Não tardou e começou a enxergar vultos arrastando-se nos cantos, ouvia a casa gemer como se tivesse vida própria. Eis que ele percebeu: a casa sempre tinha sido daquele jeito horrível e cruel, mas o fogo criara uma ilusão tal que o tinha envolvido completamente. Agora não havia mais chama, agora ele podia ver.

Cansado daquele cenário deprimente, o rapaz saiu e, pela primeira vez, percebeu o que tinha negado durante tanto tempo. Ele descobriu, finalmente, como o mundo fora da casa era belo! O telhado de barro e madeira foi substituído por um céu noturno estrelado. As paredes de tijolo e cimento agora não existiam e davam lugar a uma floresta majestosa. O chão sob seus pés era de terra, não um tapete, e podia sentir a vida pulsando ali. 

Maravilhado, começou a caminhar lentamente na direção da floresta. A cada passo que dava a casa parecia cada vez mais grotesca, definhando, chamando-o como se sentisse que estava perdendo algo que considerava proprietária. Seu chamado transformou-se em gritos, berros, urros, guinchos e grunhidos. Amaldiçoava a tudo e a todos, até que, por fim, percebendo que não podia fazer mais nada, tentou negar que algum dia alguém vivera ali, fingindo que o rapaz sequer existia. Ele, de longe, só podia lamentar ver o lugar que um dia chamou de "lar" reduzir a si mesmo àquele estado tão triste.

Pouco tempo depois, o rapaz olhou para o céu e vislumbrou a lua. Ficou tão encantado que continuou caminhando com o olhar fixo na rainha do céu noturno. Quando finalmente voltou para o solo, notou que estava perdido no meio da floresta, não sabia onde estava. Porém, não sentiu medo, de alguma forma sabia que aquele era o lugar onde deveria estar. 

Ficou ali, parado, até que viu uma criatura se aproximar. Primeiro enxergou os olhos brilharem na escuridão, depois sua silhueta felina, a leveza do caminhar, a harmonia dos movimentos. Por fim, iluminado pelo luar, pode ver a beleza da fera que se apresentava: um puma. Sem cerimônias, o animal se aproximou e o rapaz não tinha medo, tinha a sensação de que aquele felino tão belo não o machucaria. Ele estava certo.

A noite já estava avançada, o frio tomou conta do corpo do rapaz, o fez tremer. O puma, que o olhava profundamente nos olhos, veio até ele e, sem avisos, usou o próprio corpo para aquecê-lo. Nesse momento o rapaz finalmente entendeu: mais uma vez estava confortável, feliz, aconchegado, satisfeito, mas não precisava mais do fogo enganador para isso. Melhor, tinha o céu com estrelas e a lua para admirar e, com o puma ali ao seu lado, não estava sozinho. De vez em quando ainda consegue ouvir a casa resmungando, distante, mas está num lugar bem melhor agora.

Made of Steel

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

TEMPO INDIVIDUAL

Impressionante como locais de grande movimentação coletiva são ótimas fontes de inspiração para filosofar! Quase tão recorrente quanto acordar para um novo dia, andar no metrô de São Paulo me proporciona diversos momentos em que algo chama minha atenção e leva meus pensamentos para longe. Dessa vez o que assunto é o tempo (ou ritmo) que cada pessoa tem.

Estava apressado, andando numa velocidade acelerada, precisava pegar "aquele" trem senão me atrasaria para um compromisso. Foi então que no meu caminho vi se aproximando um senhor bem idoso, curvado em sua bengala, com suas passadas lentas e curtas. Já éramos antagonistas por si só, mas para minha surpresa fui ultrapassado rapidamente por um rapaz que corria o mais rápido que podia. Passou por mim, sequer notou o velho, estava focado no seu objetivo, que era o mesmo que o meu.

Muito interessante essa relação: 3 indivíduos que estavam no mesmo lugar, na mesma hora, com o mesmo destino, mas ainda assim com percepções completamente diferentes porque tiveram tempos diferentes para analisar o que se passava ali. O rapaz correndo sequer podia raciocinar qualquer coisa que não fosse o caminho mais rápido até o trem, preocupando-se em escapar dos inúmeros obstáculos que encontrava no percurso. Eu, caminhando rapidamente, conseguia ver melhor as coisas, observar detalhes, perceber o que acontecia, mas provavelmente não reconheceria um amigo passando a alguns metros de distância, se acontecesse. O idoso, por sua vez, poderia até mesmo tentar decorar as feições daqueles que passavam, sentir cheiros de perfumes passageiros que estivessem por perto. Realmente, curioso.

Curioso é perceber, então, como isso é verdadeiro em nossas vidas. Quantas vezes não deixamos de apreciar certos momentos por causa de uma pressa muitas vezes desnecessária? Aquele beijo matinal rápido do marido atrasado que tanto vemos em filmes, por exemplo, como seria seu dia se ele se permitisse um beijo caloroso e apaixonado em troca de 1 ou 2 minutos a mais de espera? E aquele bolo que não teria queimado se você tivesse sido mais rápido em desligar o forno? Hoje é tudo tão frenético, desperdiçamos muita coisa por isso! Afinal de contas, são as tartarugas que vivem 100 anos, não as lebres!

Cada um tem seu ritmo, cada corpo trabalha num tempo diferente, isso é indiscutível, mas meu questionamento está no exagero. Temos que parar com essa mania de achar que "otimizar o tempo" seja preencher todos os segundos do seu dia com atividades sem margens para respiros. Certas coisas da vida precisam de um pouco mais de paciência para atingirem seu ápice.

Foi assim, depois de "perder um pouco do meu tempo" pensando que percebi: quem será que aproveita melhor a vida? O rapaz corredor que está "otimizando" seu tempo ou o senhor que efetivamente consegue sentir e perceber simplesmente porque se permite "desperdiçar" parte do pouco tempo de vida que lhe resta?

Acima de tudo: de quanto tempo as pessoas precisarão para perceber isso?

Made of Steel

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A MAIOR ESTUPIDEZ HUMANA É EXISTIR

"O ser humano é um vírus" dizem alguns estudiosos. Pensando bem, eles estão quase certos! Ao meu ver, não somos um vírus, mas sim um câncer. Afinal, até onde minha ignorância sobre medicina me permite saber, câncer é um tipo de anomalia celular, enquanto vírus são criaturas vindas de fora que de alguma forma vão parar dentro do nosso corpo e daí começam a fazer estragos. Como nós não viemos de outro planeta e (dentro da MINHA crença) nem fomos criados a partir do capricho de uma divindade, mas sim da evolução que ocorreu durante séculos, então nascemos no próprio planeta e, enlouquecidos, estamos tentando destruir o local onde vivemos.

Além do câncer, podemos fazer várias analogias interessantes sobre nosso papel no grande "organismo" que é nosso planeta. Muitos estereótipos criados por nós mesmos e que, ironicamente, são tão verdadeiros para nossa condição que sequer percebemos. Podemos ser "a ovelha negra" das espécies, por exemplo. Ou quem sabe até "o rebelde", aquele que quer "lutar contra o sistema". Também tem o "emo", que fica choramingando a própria desgraça sem perceber que pra mudar essa condição basta um pouco de força de vontade. Podemos ser também os "playboys" que se acham melhores que as demais espécies por algum motivo fútil.

Aliás, o que nos faz acreditar que somos superiores, afinal? Talvez nossos polegares opositores tão práticos. Talvez nossa inigualável capacidade bípede de se locomover. Pode ser também nosso costume de usar tecido para nos proteger (algo que chamamos de "roupa"). Certamente nossa inteligência super-desenvolvida, capaz de nos proporcionar todos os avanços e descobertas tecnológicas desde a roda até o último lançamento da Apple Inc. Obviamente, o simples fato de termos consciência da nossa superioridade já nos torna automaticamente superiores aos demais animais que vivem por aí. Estamos tão acima que nos tornamos praticamente intocáveis!

Grande piada! Temos carros, mas nos desesperamos com a presença de uma barata. Temos matemática, filosofia e química, mas nos suicidamos porque alguém disse na TV que o mundo acabaria em poucos dias. Temos cidades, mas somos obrigados a criar apresentações de PowerPoint que mostrem pras pessoas a importância de preservar o meio ambiente. Temos cirurgias para os olhos, mas somos cegos em perceber que não é o planeta que está implorando por salvação. Quem está implorando somos nós mesmos.

Tal qual um câncer, não há cura para nós. Pelo menos por enquanto. Um dia a Terra encontrará a resposta e, sem avisos, transformará esse câncer num capítulo dum livro de História que não terá nenhum grande estudioso para ler. E mesmo que não encontre, ao contrário de nós quando estamos terminalmente doentes, continuará existindo até que seu câncer destrua a si mesmo e desapareça. Provando, assim, que os humanos não eram tão superiores, afinal.

Made of Steel