segunda-feira, 18 de setembro de 2017

ENTÃO, O QUE FALTA?

Faz tempo que não passo por aqui. Faz tempo que não escrevo. 
Falta vontade? Não. Então, o que falta?

Essa é uma pergunta que me faço com frequência: "então, o que falta?"... Ao mesmo tempo que me respondo "pouco", respondo "muito". Pois sei que tenho mais que muitos, mas também sinto que me falta muito mais.

Não queria escrever um texto melancólico com um toque de autopiedade, como se fosse um pedinte carente por atenção ou compreensão ou aceitação alheia. Mas, por outro lado, me sinto tão vazio que preciso colocar em palavras toda essa frustração.

Me sinto num momento de "pausa", suspenso nas minhas próprias inseguranças e cobranças. Tenho medo de falhar. Pior: falhar comigo mesmo.

Confesso que estou escrevendo esse texto com palavras que saem sem serem pensadas. Qualquer poesia que possa existir nelas se faz por sorte e o significado talvez fique incompleto.

Então, o que falta?
Encontrar o modo certo de continuar...

Made of Steel

sexta-feira, 5 de maio de 2017

SOBRE NUVENS QUE PINTAM E SORRISOS QUE DIZEM

Era um texto sem falas... pelo menos nas bocas dos protagonistas. As sílabas eram ditas com olhares, respirações, meios-sorrisos, carícias e caretas. Os coadjuvantes diziam coisas, mas suas palavras saíam em forma de nuvens coloridas, flutuando pelo espaço e pintando tudo ao redor.

A mensagem que o texto transmitia? Apenas o dono daquele singelo sonho sabia, ainda que uma letra sequer tenha surgido em momento algum. 

No nosso mundo individual, certas coisas são absolutamente descartáveis quando nos tornamos oniscientes. Mas mesmo nossa onisciência falha quando o onírico encontra a sombra do desconhecido. Nos tornamos espectadores.

Então percebemos que, mesmo sem nunca desvendarmos totalmente o misterioso sorriso da Monalisa, ainda podemos nos deleitar com a beleza da obra... e ver florescer nosso próprio sorriso de prazer enigmático.

Made of Steel

sábado, 31 de dezembro de 2016

SEM LIMITES

Existe uma canção dum famoso musical (RENT) que faz a pergunta: Como você mede um ano?

Na letra, podem ser "daylights, sunsets, midnights, cups of coffee, inches, miles, laughter, strife" e, por fim, propõe que seja medido em AMOR.

Como todos fazem nessa época, fiquei tentando lembrar o que vivi em 2016 e fazer um "balanço" do ano. Minha conclusão? Eu meço meu ano em SENSAÇÕES.

Os toques dos abraços que recebi, os sabores dos beijos, as palpitações dos momentos de ansiedade, as angústias dos momentos tristes, os cheiros dos perfumes que senti, as contorções nos rompantes de raiva, os relaxamentos naquelas horas sublimes, as faltas de ar nos instantes que antecederam coisas importantes, as irritações dos problemas cotidianos, o calor do sol na minha pele, as lágrimas que escorreram pelo meu rosto, o suor que percorreu meu corpo, os movimentos dos meus lábios em cada sorriso...

Baseado nisso posso dizer, sem qualquer dúvida, que 2016 foi um dos anos mais longos da minha vida!

Tão surpreendente que, mesmo nos seus dias finais, este ano conseguiu se estender ainda mais. Como se quisesse ser infinito.

A grande lição que tiro deste ano é que a vida é frágil e, talvez, não exista um "propósito maior". Talvez sejamos mesmo todos como hamsters brincando numa rodinha, sem sair do lugar ainda que não paremos de correr. Mas nem por isso a vida deixa de ser mais bela e intensa. Essa "corrida sem chegada" pode (e deve!) ser recheada de prazeres, de todos os tipos!

Afinal, se essa corrida não tem fim, ela é infinita. E o que é o infinito senão algo que não tem limites?  :)

Obrigado a todos que fizeram parte do meu 2016, e de todos os anos anteriores também!

Que o próximo ano seja mais doce, mais intenso e ainda mais difícil de ser medido.

Que cada dia, cada instante, seja infinito!!

Made of Steel

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

A MULHER NA ILHA

Estava na praia, como fazia quase todos os Sábados, caminhando tranquilamente. Daquelas coisas que, de tão habituados, fazemos quase sem pensar. Porém, desta vez, algo novo chamou minha atenção: uma linda mulher, com um sorriso vibrante e cabelos castanhos, acenou para mim.

Meu corpo inteiro se arrepiou. Acenei de volta e começamos a conversar animadamente, num flerte tão óbvio que até quem estava ao redor parou para assistir à cena.

Não demorou muito e já estávamos dançando juntos, trocando olhares, beijos, carícias e suspiros. Sua voz doce invadia meus ouvidos de um jeito arrebatador e seus lábios pequenos pareciam eternos convites.

Nos apaixonamos quase instantaneamente. Era tudo muito simples, natural, sincero.

Porém, num determinado instante, senti a água do mar sob meus pés e, ao olhar pra baixo, vejo que eu estava na beira da praia. Subindo meu olhar percebo, então, que a linda mulher não estava ali ao meu lado, mas numa ilha.

Ela estava lá desde o início, ainda que tudo que vivemos juntos naqueles breves momentos anteriores também tenham sido reais! Ela não saiu da ilha, nem eu fui até lá, mas ambos tínhamos a certeza de que estivemos unidos.

Depois de saber da existência da ilha, ficou mais difícil me aproximar. A mulher, por sua vez, hora demonstrava não querer estar ali e vir para os meus braços, noutras deitava no solo e deixava muito claro que se sentia feliz naquele lugar, em outros até parecida não querer nem um, nem outro.

Atravessar o mar para vir ao meu encontro era algo perigoso. Mesmo que ela amasse o Reino de Yamenjá, já vivenciara nele perigos que deixaram cicatrizes pra toda sua vida. Além disso, a ilha não era um lugar ruim! Aquele pequeno espaço de terra lhe proporcionou diversos momentos bons.

Lá estava eu, triste por não poder me aproximar, mas feliz por tê-la conhecido e poder tocá-la, mesmo que à distância. 

Cogitei construir um barco e cheguei a reunir alguns pedaços de madeira, mas ela me censurou, como se repetisse com os olhos aquilo que disse no dia em que nos conhecemos, num outro contexto, fora deste texto de metáforas e poesia: "deixa que eu mesma resolvo meus assuntos". 

Tanto eu quanto ela sabíamos que, de fato, não cabia a mim intervir. Mesmo que meu nome signifique "protetor/guardião", o dela significa "ousada para atingir a paz", então é suficientemente forte para decidir o que fazer, sozinha.

Não vou mentir e dizer que não gostaria de tê-la ao meu lado. Mas estou feliz em vê-la mesmo quando tenho meus olhos fechados e em visitá-la ali, da beira da praia, para trocar nossos carinhos tão sutis e improváveis. E, ainda que ela precise ficar só, acredito que minhas visitas lhe fazem, de alguma maneira, feliz. Vejo isso nos seus lindos olhos.

Enquanto ela dança ao sabor do vento, plena, inteira e completa, aqui estou, também pleno, sentado na areia, pensando na linda mulher que me inspira, e escrevendo este texto.

Antes do ponto final, quero te dizer, com um sorriso e absoluta leveza, uma coisa que por muitas vezes quase foi dita em palavras e mais de uma foi dita pelo meu olhar:

Eu te amo.

Made of Steel

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

FOLCLORE DO FOGO FÁTUO

Ela tinha nome e beleza de sereia. Praticamente uma menina, com seu jeitinho meigo e cativante. Tinha desejos de mulher, e olhava para o futuro como uma gigante, apesar do corpo pequenino.

Nos conhecemos há poucos meses, num evento com muitos desconhecidos, mas de alguma maneira nos conectamos imediatamente. Não nos envolvemos profundamente, apenas tínhamos a sensação mútua de que fazíamos bem um para o outro, e isso bastava. 

Olhos verdes, sorriso fácil e largo. Ambos muito presentes nas fotos que tirou no Domingo enquanto se aventurava na Selva de Pedra fazendo rapel numa de suas pontes. Atividade perigosa, mas feita em segurança.

Na segunda-feira, dia seguinte, ela estava morta.

Era Dia das Bruxas e, tal qual na Idade Média, uma mulher se viu atacada pelo fogo. Ironicamente, tudo aconteceu em sua casa durante a noite, enquanto todos dormiam. Atividade segura, mas que se tornou perigosa.

Fogo-fátuo é um fenômeno da natureza que pode acontecer por causa dos gases liberados na decomposição de corpos. Na mitologia, poderiam ser fadas ou até mesmo demônios que levavam desavisados para emboscadas. No nosso folclore, está relacionado ao Boitatá.

No dicionário, fátuo: 1) Que possui uma opinião positiva muito elevada de si mesmo; que se julga melhor que os demais; presunçoso; 2) Que apresenta insensatez; insensato; 3) Que não dura muito; que não permanece; transitório.

Esse fogo foi, de fato, fátuo. Presunçoso, insensato. Ceifou a vida de uma garota que ainda tinha muitos sonhos pra concretizar e tantos outros para sonhar. Fátuo também foi nosso encontro. Transitório, breve. Mas nele também houve fogo, daquele que aquece e explode de um jeito bom.

Irônico que a serpente Boitatá tenha levado embora a sereia Iara exatamente no Dia do Saci.

Fica a lição de que, assim como o fogo, nós e a vida somos fátuos. Supervalorizamos a vida e a nós mesmos, como se esquecêssemos o quanto ela é curta e nós frágeis. Ambos insensatos e que não duram muito.

Que cada instante seja pleno e, ao seu modo, eterno.

Fique bem, pequenina!

Made of Steel

terça-feira, 22 de novembro de 2016

NINGUÉM PARA USAR

Uma casa grande. Sofá macio com cinco lugares, além de poltronas e cadeiras extras. Uma TV de sabe-se-lá-quantas polegadas e uma razoável coleção de filmes. Mas ninguém para fazer companhia.

Portão automático com garagem para dois carros numa rua tranquila onde podem estacionar tantos mais. Belas portas para se abrir e janelas amplas para que entre muita luz. Mas ninguém para chegar.

Tantos copos guardados no armário. Talheres que serviriam cinquenta mãos. Pratos suficientes para um verdadeiro banquete. Mas ninguém para usá-los.

Ah... tão melhor seria se fosse um casebre abafado e mal iluminado, onde fosse preciso sentar no chão, comer com as mãos diretamente das panelas e a única atração fosse uma conversa alegre entre amigos!

Pra isso, é preciso abrir o coração ao invés de portas, iluminar com os olhos ao invés de janelas, alimentar com sorrisos ao invés de talheres. No lugar de DVDs, palavras doces. Sai o sofá macio e entra o abraço acolhedor.

Infelizmente, pra algumas pessoas, isso parece ser difícil de se fazer. Então elas continuam sem entender o que acontece, sem entender porque tudo que prepararam para receber o mundo não lhes trouxe o mundo.

"Happiness only real when shared", disse o filme. Mas, num tempo onde a primeira coisa que vem à mente ao dizer a palavra "compartilhar" é um botão virtual azul, aprender isso é uma lição preciosa.

Made of Steel

terça-feira, 8 de novembro de 2016

PÁSSARO NA GAIOLA

Hoje o Facebook recuperou a memória de um post que fiz há 3 anos onde fazia minha contagem regressiva até, finalmente, me libertar da rotina dum emprego que não era mais suportável. Naturalmente, isso me fez parar por um instante pra refletir sobre o que aconteceu desde então.

Me sentia um pássaro dentro duma gaiola que, mesmo sabendo que estava seguro e com comida garantida no pote, olhava através das grades e não conseguia desejar nada senão conhecer o mundo lá fora. Mesmo sabendo que era perigoso, abri a porta da gaiola e saí de peito aberto, confiante de que conseguiria sobreviver.

Eu me arrisquei: larguei a estabilidade do funcionalismo público para investir numa carreira artística num país onde o cenário para isso é atroz e cruel. Escolhi o duvidoso e, na minha avaliação, acertei!

Durante esse percurso, fui elogiado muitas vezes pela minha "coragem". Mas, ora, que tipo de elogio é esse? Por que é admirável que alguém simplesmente escolha seguir o caminho que te faz feliz? Que visão deturpada é essa?!

O mundo fora da gaiola é realmente selvagem, é verdade. Mas se engana quem pensa que dentro dela está a salvo. As grades não protegem de tudo: as garras dos predadores ainda passam entre os vãos e, com um breve vacilo, você pode sair ferido. Isso sem falar que, a qualquer momento, você pode ser expulso da gaiola contra a sua vontade e, então, se ver obrigado a enfrentar o hostil "lado de fora" sem estar verdadeiramente preparado.

Seja como for, acredito que seja mais fácil para quem está fora das grades perceber todos esses perigos. Então continuo aqui com meus vôos, descobrindo a cada dia como fazer para chegar inteiro ao fim dele, enquanto observo outros pássaros dentro e fora de seus cárceres.

Mas... posso confessar uma coisa? Às vezes vejo sombras de grades por lugares onde passo e fico me perguntando se, afinal, o "mundo de fora" nada mais é do que o interior de uma gaiola ainda maior.

Se realmente for, será que me contentarei com o que tenho? E se, ao transpassar mais um limite, será que não encontrarei gaiolas cada vez maiores?

Será que, algum dia, serei verdadeiramente um pássaro livre?

Made of Steel

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

ALG'UMA

Uma recepção com vidro que o separa da atendente. Dois documentos. Uma hora. Quarenta Reais. Uma chave. 38. Um corredor muito estreito. Muitas portas. 38. Uma cama. Duas pessoas.

Eram duas mesmo, uma e a outra? Ou apenas uma? Quanto à outra não há como saber, mas a uma não era uma.

Uma não era pessoa, era algo. Algo que foi uma pessoa, mas naquele instante era algo.

Quando uma vira algo? Como uma vira algo?

38. Roupas espalhadas. Nu.

Nu de corpo. Nu de vontade. Nu de querer. Nu de ser. Nu de estar. Nu de viver. Não o nu que liberta, mas o que aprisiona, que engana, que carece.

38. Olhos fechados. Sem vontade. Obrigação.

Mas quem obriga? Alguém obriga?

Erro. Raiva. Nojo. Pena. Desprezo. Do algo, não da outra. A outra não tem culpa. A culpa é da fraqueza de algo, do medo de algo, da tristeza de algo, da solidão de algo, do arrependimento de algo, da dor de algo.

Um espelho. Troca de olhares. Uma olha pro algo. Corrói.

47 minutos. Roupas. Corredor. Recepção. 38. Adeus. Obrigação. Beijo. Vazio.

A uma vira algo quando se esquece daquilo que é. O erro traz vergonha, pois envergonha todos que o vêem como uma, todas pelas quais uma se entregou de verdade, todos que acreditam nessa uma como sendo mais que apenas uma, mesmo que nenhum destes todos saiba que uma virou algo, pois a pior que pode existir é uma vergonha de si próprio.

Pelo menos o algo agora quer voltar a ser uma e, só de dar esse pequeno passo, se torna alg'uma.

Made of Steel

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

MATUTO

Peço humilde desculpa pela intromissão, má me contáro que nessa portêra tinha tamanha formosura em formato de moça que faz quarqué história de pescadô parecê pussível!

Disseram que o surriso compete com o sol no bríio, que o chêro engana o bêja-frô e as abêia tudo. Que a voz é de sereia, e a pele má macia que um novelo de lã feito das ovêia duma fazenda intêra!

Daí eu, que sô bobo má num sô besta, vim procurá. E agora que tô aqui, vi que o que me disseram era tudo metade! A intêra é tão mais, má tão mais, que faria até anjo descê das núvi pra ispiá e querê perdê as asa!!

Sei que não sô anjo nem dotô. Sô só um matuto que tenta vivê a vida dum jeito leve e sereno. Mas, se for do seu gosto, posso lhe cedê de bom grado todo o carinho que tenho só pra te fazê feliz e garanti que, se o sol pará de briiá um dia, o mundo não vai tá danado porque vai tê teu sorriso no lugar!

Oi? Ocê diz que num pódi? Eu entendo... Ocê tem medo que eu avôe muito alto e que, numa bobiada, eu iscurregue, caia lá das artura por num tê asa de verdade e me quebre em vários pedaço qui nem vidro de leite. Afora isso, ocê ainda num tá sigura das tua própia asa e pricisa aprendê a avoá sozinha, né?

Tudo bem, moça-anjo! Num tem pobrema, não! Num sô de vidro, má já tô rachado como chão de sertão na seca por causa desse sol que num sai de cima da cachola e essas planta espinhenta que insiste em maltrará o côro!

Só lamento num tê asa pra ti ajudá a aprendê a avoá e num podê conhecê o céu contigo pra aliviá os calo dos meu pé discalço...

Seja como fô, quando tivé lá nas núvi e me vê, acene pra mim com seu sorriso que bríia como o sol, que prometo acená de volta pra tu com o meu sorriso disdentado, mas sincero!

Seja feliz, moça formosa! Igual no riacho que dá caminho pr'água corrê, a vida segue sempre! Nunca pára!

Agradeço tê cruzado teu caminho, porque nesse instante sô um matuto diferente do que era di quando cheguei aqui nessa portêra. Vô imbóra bobo como cheguei, má vendo umas cor nova nesse mundão todo!

Agora ocê me dá licença que preciso seguí meu rumo. Adeus!

Made of Steel

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

FRANCO ESPELHO

Durante minha infância e adolescência, fui o "nerd, tímido, baixinho e gordinho que sofria bullying". Com 16 anos, cresci e emagreci. Com 17, me olhei no espelho e disse pra mim mesmo que não seria mais tímido, que mudaria meu jeito de agir para não deixar de viver o que o mundo oferecia.

Hoje, 10 anos depois, me pego novamente diante do espelho. E o que vejo?

Vejo alguém que conseguiu apenas em parte cumprir o trato que fez consigo mesmo. Alguém que realmente deixou a timidez no passado e dificilmente se vê recuar por receio de se expor, mas, também, alguém que não conseguiu viver plenamente o que o mundo ofereceu.

Sou um livro escancarado, de letras grandes, páginas largas e cheias de desenhos. Há quem ache até a capa atraente. Entretanto, nem todos conseguem ler o que está escrito, porque poucos querem ou sabem ler. As figuras são sempre coloridas e chamam a atenção. Os títulos e algumas palavras em destaque também ganham olhares. Mas o texto por várias vezes parece incoerente e as notas de rodapé não são capazes de esclarecer.

Gosto de ser quem sou hoje, de verdade. Mesmo assim, me sinto eternamente angustiado por nunca parecer ser suficiente para mim mesmo.

Conheço pessoas, ajudo pessoas, me preocupo com pessoas, me relaciono com pessoas, me entrelaço com pessoas, gozo com pessoas, divido com pessoas, sorrio com pessoas, brigo com pessoas, vejo pessoas... ainda falta!

Conheço a mim mesmo, me ajudo, me preocupo comigo, me relaciono comigo, me entrelaço comigo, gozo comigo, divido comigo, sorrio comigo, brigo comigo, me vejo... ainda falta!

Por vezes não me sinto humano... e quem está ao meu redor enxerga o exato oposto. Quanto mais me vejo vazio, mais as pessoas vêem cheio.

Será que visto uma máscara que não consigo mais tirar? Que tipo de maldição é essa que sequer me permite sentir uma lágrima escorrer pelo meu rosto? Como chamar de bênção essa armadura que me protege implacavelmente contra os golpes do mundo, mas que me priva do toque sutil, encarcera minhas dores e sufoca meu grito?

Eis a resposta: estou diante do espelho, mas não vejo.

Made of Steel
(o nome deste blog jamais fez tanto sentido quanto agora...)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

UM NAVIO DE NUVENS NO HORIZONTE

Existe uma cidade
Onde existe um lugar
Onde existe um penhasco
Onde existe uma pedra.

Existiu um par
Onde existiu um momento
Onde existiu um navio de nuvens no horizonte
Onde existiu um anoitecer
Onde existiu uma queima de fogos-de-artifício.

Existirá uma lembrança
Onde existirá um sorriso
Onde existirá um espaço para novas lembranças.

Made of Steel

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

SABEDORIA DE ESTAMIRA

Sou um típico morador da cidade de São Paulo: sempre correndo, sempre sem tempo, pegando metrô, pegando ônibus, pegando carro, pegando trânsito. Vivo a cidade no seu ritmo e, muitas vezes, com seu olhar indiferente para tudo que vai além do meu próprio umbigo.

Certa vez, numa manhã qualquer, quase embarcando num ônibus no Terminal Bandeira, ouvi gritos agudos que não significavam nada em especial. O som direcionou meu olhar pra cena e vi um grupo de funcionários da Prefeitura jogando coisas num caminhão, enquanto uma moradora de rua observava, impotente, seus pertences tão simplórios sendo levados.

O que mais prendeu minha atenção não foi a indiferença de quem passava por ali, nem o modo autômato como os funcionários realizavam sua tarefa, pois já era esperado. As pessoas estão preocupadas demais consigo mesmas, e os trabalhadores estavam apenas cumprindo ordens, sem tirar qualquer tipo de prazer daquela situação.

O que me hipnotizou foi o rosto daquela mendiga e seu cântico quase animalesco. Ela não chorava, não enraivecia. Obviamente com sua razão danificada por algo que nunca saberei o que foi, aquela senhora de aparentes 50 ou 60 anos de idade se limitava a grunhir coisas ininteligíveis.

Me lembrei de Estamira, chamada por uns de "louca", por outros de "profeta", por alguns de "sábia". Fiquei imaginando o quanto daquele discurso da mendiga do Terminal Bandeira não poderia conter sabedoria, se fosse possível entendê-lo.

"A culpa é do hipócrita, mentiroso, esperto ao contrário, entendeu?, que joga a pedra e esconde a mão".

"Ó, você quer saber? eu não tenho raiva de homem nenhum. Eu tenho é dó. Eu tenho raiva do trocadilo, do esperto ao contrário, do mentiroso, do traidor. Desse é que eu tenho raiva, ódio, nojo!".

Meu ônibus começou a andar e mantive meu olhar naquela senhora enquanto pude. Uma cena triste, mas humana. Fui embora dali com a certeza de que, em pouco tempo, ela estaria lá de novo com várias outras coisas acumuladas, até que o processo todo se repita.

Seja como for, saí com a certeza de que, mesmo sem entender uma palavra sequer do que ela dizia, ela estava certa.

Made of Steel

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

CICATRIZES OCULTAS

Agosto. Segunda-feira. Tarde. O rapaz, chamado Lucas, tinha no rosto uma expressão indiferente, senão tediosa. Na sua mão, uma pequena máquina manipulada com destreza duvidosa, mas suficiente. Cada fio que caía embalado pelo som incansável do aparelho revelava algo novo. 

Em oposição ao semblante do rapaz, eu observava atentamente cada detalhe. Queria garantir que aquele momento ficaria registrado na minha memória. Então começaram a surgir: cicatrizes. Mais do que pensei ter. Mais do que lembrava ter.

Aquela briga com minha irmã mais nova há muitos anos atrás... Aquele dia em que caí enquanto corria e acertei a quina de alguma coisa... Acho que era isso... E essa? De onde veio? E aquela?

Eram cinco no total. Das quais apenas uma tinha origem certa. As demais estavam lá para provar que as tinha vivido, mas minha mente não me dizia o que. Sensação engraçada aquela. Misto de descrença e desagrado. Desconforto.

O som findou. Meu reflexo no espelho mostrava que agora estava completamente careca. Acho que nem quando nasci tive tão pouco cabelo. Pela primeira vez em todos os meus quase 26 anos de historia, não tinha como me esconder.

Cada um daqueles fios de cabelo era ao mesmo tempo uma parte do meu ego e um pedaço da minha armadura. Desde pequeno sempre me senti tão frágil, mesmo usando de todos os recursos que dispunha para mostrar o contrário pro mundo. Agora eu estava ali, com minha armadura no chão, nu, leve. Não tinha mais motivo para me esconder. Precisava provar para mim mesmo que me bastava, sem truques, sem ego.

Passei a mão por toda a careca e senti o toque áspero dos minúsculos fios que escaparam à máquina. Olhei mais uma vez cada uma daquelas cicatrizes. São feridas que nunca fecharão completamente e, mesmo que não me lembre de onde vieram, não me importo. Eu aceito.

Uma vez ouvi a frase: "Ria, e o mundo rirá com você. Chore, e chorará sozinho". Bom.. Diante de mim mesmo naquele espelho, eu sorri.

Made of Steel

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

INSETO NO ELEVADOR

Estava atrasado para o trabalho, só pra variar um pouco. Levantar da cama era uma batalha diária e cada vez menos tinha vontade de vencê-la. Era uma pequena morte a cada manhã.

Entrei no elevador para subir os sete andares até a minha mesa. Julguei estar sozinho, mas me equivoquei. Um pequeno inseto voava debilmente lá dentro, se lançando contra as paredes, indo na direção das diversas luzes daquele cárcere temporário na esperança de achar a saída.

Sua inteligência artrópode era limitada demais para entender o que estava acontecendo, creio eu. Será que ele é capaz de sentir pânico? Será que é preciso racionalizar o perigo para o chegar no desespero?

O painel finalmente mostra o número 7. A porta se abre e novas luzes, ainda mais intensas, levam o inseto para este novo ambiente. Um pouco mais amplo, mas igualmente confinado e mentiroso. Ele procura a luz do sol, não a lâmpada!

Durante poucos segundos, ele parecia satisfeito com seu novo espaço, mas não demorou muito para iniciar mais uma vez seu frenesi em busca de algo além daquelas paredes. Talvez ele saiba, ou apenas sinta, que sua vida de inseto é curta demais para perder tempo com lâmpadas artificiais.

Entrei na minha sala, sentei na minha mesa. Não conseguia mais ver se ele ainda estava no corredor, mas conseguia ver o sol iluminando o dia através da janela. Toquei o vidro suavemente e respirei fundo. A tela do meu computador brilhou e roubou minha atenção. Mais um dia de trabalho.

Made of Steel

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

MAS O QUE VAI RESTAR É O SILÊNCIO

Era domingo. A nação escolhia seu governante pelos próximos quatro anos. Era domingo e, assim como num certo domingo de Agosto recente, tive que me desfazer de uma parte de mim, mas desta vez a dor era muito maior, pois era uma parte que não queria perder.

Era domingo quando nos conhecemos. Na verdade, foram dois domingos. No primeiro você me conheceu, no segundo eu te conheci.

Era domingo quando senti o gosto dos seus lábios pela primeira vez e, um domingo depois, tão avassalador era aquele sentimento que dividíamos, ouvi um "sim" ressoando docemente entre esses mesmos lábios.

Era domingo quando te entreguei os anéis de prata que selavam nosso compromisso. Tudo isso durante um ritual sagrado, solene e intenso que acontecia há exatos três anos. Justo 3, um número que sabemos quantos significados tem para nós.

Muitos domingos se passaram desde então. Muitos sorrisos, beijos, abraços, carinhos, toques, palavras, respirações, ocitocinas, panaceias, batimentos, lágrimas... Só não pensei que o domingo seria também o fim, pois não pensava que existiria o fim.

Domingo é o dia do Sol. Foi você quem me ensinou. Assim como me ensinou muito mais. E lhe serei eternamente grato por isso. Assim como serei eternamente acompanhado pelo sentimento transcendental que nos uniu e que sabemos que nunca nos abandonará.

Escrevo essas palavras numa segunda-feira, dia da Lua. No mesmo dia da Lua em que você inicia um novo ciclo que comemoraríamos num dia do Sol depois de, numa sexta-feira, dia de Vênus, eu cantar com todo o meu fôlego para que deixem o Sol entrar. Sol... domingo... deixa... entrar...

E é assim, sem conter as lágrimas que escorrem pelo meu rosto, que deixo entrar sua última mensagem vinda no dia do Sol, mesmo que ela "entrar" signifique aceitar que parte de mim saia e que, ao contrário do que se espera do Sol, me tire um pouco da luz.

No seu próximo dia de Vênus, você estará celebrando mais uma vez um ritual de amor. Como você mesma disse, de Amor Próprio. Eu me despeço com outras palavras que cantei no meu último dia de Vênus:

Um último olhar
E um abraço dar
Pela última vez beijar
Mas o que vai restar
É o silêncio...

Adieu?
Non.

Made of Steel

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

VANESSA DO LARGO

Era domingo. Era noite. Não havia nuvens e a lua estava especialmente cheia, preenchendo boa parte do céu com a sua forma e todo o resto com a luz que refletia do sol. Se eu não estivesse no meio da cidade, cheia das suas luzes elétricas e neons, certamente estaria igualmente claro (e poético), graças à ela. O clima estava agradável, pedindo por uma caminhada. Minha mente, ao contrário do céu, estava bastante nublada, pedindo por uma reflexão.

Andei por horas, cruzando a cidade para chegar até a minha casa. No caminho, na região da Estação da Luz, fui abordado por uma mulher, claramente dependente de drogas, armada com caderno e caneta, me oferecendo sua Arte Cultura: Poesia de Rua. Seu nome é Vanessa, ou, como ela me disse, sorrindo com seus dentes faltantes: "Vanessa do Largo, porque não sou nem a Camargo, nem a Da Mata, mesmo sendo Vanessa. Então, como sou daqui, sou a Vanessa do Largo, entendeu?".

Pessoas que passavam por nós olhavam com estranheza. Nunca saberei o que pensavam. Se era "o que essa mulher está conversando com ele?" ou "o que esse cara esta conversando com ela?". Mas perceber isso também me divertia e, ao mesmo tempo, entristecia. Afinal, somos dois seres humanos dotados de capacidades comunicativas. Por que motivo uma conversa deveria ser tão estranha? Sociedade doente...

Com o passar do tempo, ela foi ficando mais confiante para falar. Disse muitas frases prontas, de fato, mas todas com alguma poesia. Ao mesmo tempo que falava, riscava seu caderno com uma agilidade nervosa típica de alguém que já está há muito entregue às drogas. Tive a nítida impressão de que, se fosse preciso, ela ficaria horas e horas riscando aquelas folhas.

Por fim, Vanessa fez o pedido que eu já esperava desde o momento que a vi se aproximar: "aceito qualquer contribuição que puder dar pela minha Arte Cultura: Poesia de Rua". Era engraçado como, sempre que falava do que estava fazendo, ela precisava repetir o slogan inteiro. Ao mesmo tempo que sua voz e jeito de falar transpareciam todo o peso daquela vida.

Olhei em seus olhos e decidi fazer um pequeno jogo:
– Se eu te der algum dinheiro. O que fará com ele?
– Vou tomar um banho.
– Não minta pra mim, Vanessa! O que vai fazer com o dinheiro?
– Vou mesmo tomar um banho, porque estou precisando... e dar uns pegas também, é verdade! Mas estou nessa vida porque eu quis, porque eu escolhi!

Eu sorri, pois era exatamente isso que eu queria com aquele joguinho. Só queria ouvir uma verdade óbvia. Queria que ela fosse verdadeira comigo, assim como eu estava sendo com ela naquele momento.

Então fiz um último pedido: que escrevesse algo para mim enquanto pegava algum dinheiro para ela. Sua caneta voltou a riscar nervosamente a folha e Vanessa declamava aquilo que colocava no papel:

"p/ Sérgio c/ carinho

Arte Cultura
Poesia de Rua

Somos livres p/ escolher
Porém escravos das consequências

Vanessa do Largo"

Não cabia a mim fazer qualquer julgamento ou tentar "salvá-la daquela vida". Sabia que, de certa maneira, estava contribuindo com seu vício, mas suas palavras falavam tanto dela mesma quanto de mim. Ela foi livre pra escolher e agora é escrava das consequências. Então lhe dei um pouco de humanidade, de atenção, de carinho. 

Ofereci apenas um aperto de mãos e um "obrigado" ao invés de ceder à minha vontade de abraçá-la. Me arrependo disso.

Trocamos a minha nota por sua folha. Papel por papel. Cada qual com um valor diferente. E, ao meu ver, fiquei com o mais valioso dos dois.

Made of Steel

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

QUEM DERA...

"Quem dera" é desejo, expectativa, frustração, tristeza.
"Quem dera" é renovação, vontade, impotência.
"Quem dera" é sonho, efêmero, passageiro, distante.
"Quem dera" é falso.

Quem dera as pessoas parassem de usá-lo sem realizá-lo.
Quem dera eu fosse diferente destas pessoas.

Made of Steel

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

ETERNO SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

Gostaríamos de ser todos Teseus e Hipólitas, soberanos e poderosos. Talvez Lisandros, Demétrios, Hérmias e Helenas, tão apaixonados e vívidos, aventureiros. Também nos encanta a ideia de sermos Oberons, Titânias e Pucks, com sua astúcia e magia. Ah, como isso seria maravilhoso! Um verdadeiro sonho!

Mas a verdade é que somos nada mais que carpinteiros, tecelões, funileiros, marceneiros e alfaiates, todos atuando em papéis de maneira tão medíocre quanto patética. Arrogantes em querer representar heróis, leões e até mesmo o luar.

Tão mais honesto seria se nos concentrássemos em nossas verdadeiras virtudes! Tão mais formidáveis seríamos se nos fosse mais querido realizar aquilo que nossas aptidões sugerem! Por que desejamos tanto aquilo que não somos? Por que é tão difícil aceitar a si próprio?

Porque devo ser perfeito e soberano aos olhos dos outros. Porque o amor é pré-moldado e qualquer coisa fora desta forma escolhida é promíscua e errada. Porque astúcia é uma qualidade necessária nesse mundo cheio de armadilhas sociais e a fantasia nos oferece uma fuga à realidade fria como o inverno. Frio é ruim, o calor é bom.

Então continuemos nossa interminável peça. Tão trágica quanto a história de Píramo e Tisbe, tão cômica quanto os atores que a encenam. Continuemos nossa dança cíclica acompanhada de fadas e elfos! Continuemos vivendo, cada um, seu próprio e eterno sonho de uma noite de verão!

Made of Steel

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O CORPO

O corpo pede.
O corpo deseja.
O corpo chama.

O corpo é chama.
O corpo é fogo.
O corpo é vulcão.
O corpo é raio.
O corpo é choque.

Choque entre aquilo que se quer e o que se deve.
Choque entre o que se pode e o que se tem.

O corpo quer, deve, pode e tem.

O corpo é vontade.
O corpo é luxúria.
O corpo é desejo.

Made of Steel

quinta-feira, 13 de março de 2014

ESTOU ACORDADO?

Estávamos os dois envolvidos por águas cristalinas quando ela começou a me olhar fixamente, em silêncio. Já conhecia aquele olhar: distante, pensativo, confuso.

Seus olhos sempre me encantaram e, de tanto admirá-los, aprendi a entendê-los. Olhos de Lua, pois, assim como o astro, mudavam quase que por capricho, revelando diversas faces de si mesma, todas igualmente fascinantes.

O silêncio permaneceu por muito tempo, até ser quebrado por uma pergunta que eu já esperava:
– Estou acordada?
– Não.
– Foi o que pensei...

Mais uma vez, o silêncio. Mais uma vez, um olhar. Mais uma vez, uma pergunta. Desta vez, com lágrimas tremeluzindo junto com seu lindos olhos prismáticos:
– Então... todas as minhas memórias... são mentiras?
– Não é isso. Elas apenas não aconteceram ainda, mas virão com o tempo.
– Não! É tudo mentira! Tudo mentira...

Ofereci meu abraço mais carinhoso e consegui trazer o conforto necessário. As lágrimas cessaram e deram lugar à palavras preenchidas de ternura misturada à melancolia, narrando memórias de acontecimentos ainda reservados ao futuro. Fomos até a cama e continuamos dividindo aquele momento sereno, sincero, mágico, único. Uma conversa embalada por carinhos, olhares, carícias e palavras doces.

Um bocejo impôs sua vontade e, com voz sonolenta e olhos pesados, ela lutava para que Morfeu não a cobrisse com seu manto. Quando questionei o motivo, a resposta me invadiu, preenchendo-me com o mais puro dos sentimentos: "Se eu dormir, deixarei de existir, e minhas memórias comigo. Não posso permitir que isso aconteça".

Nossos lábios se tocaram num longo e caloroso beijo. Nos amamos intensamente até que, no ápice, ela despertou e se entregou a mim num abraço forte, compartilhando nosso êxtase.

Esse foi um dos momentos mais poéticos da minha vida, e cheguei a pensar que talvez não tivesse outra oportunidade, mas estava enganado. Mais um vez, seu despertar não-desperto veio até mim para trazer à tona os mais profundos e poderosos sentimentos.

Por desaventuras do caminho, após certo tempo, seguimos rumos diferentes. Não sem muita dor para ambos.

Alguns dias depois, quando estava deitado na cama, pronto para dormir, meu telefone toca. Seu nome, escrito no visor, me surpreendeu, mas não foi tão grande quanto o espanto ao ouvir seu tom de voz inspirando alegria num simples "oi".

Em certo momento da conversa, logo no início, aquela mesma pergunta:
– Estou acordada?
– Não.
– É... acertou!

Lá estava ela novamente, mas desta vez não para dividir memórias futuras. Eram os sentimentos de hoje que dominaram as horas de conversa que se sucederam. Inclusive com revelações e confissões inesperadas.

Seus apelos me tocaram profundamente, revelando aquilo que estava latente, encoberto com pensamentos forçados e forjados para esse exato propósito: ocultar. Eis que, mais uma vez, me vi naquela cama, com meu olhar perdido em seus Olhos de Lua, lutando contra o sono. Mais uma vez, preenchido.

Então abro meus olhos, deitado na minha cama, olhando para o teto. De repente tudo tão distante, tão frio.
– Estou acordado?
– Sim, estou.

Made of Steel